O Modelo de Assistência das Parteiras

Lá vou eu bater na mesma tecla! Mas bom, como me disseram esses dias: “pode bater na mesma tecla, eu quero entender”.  Eu acho que então vou continuar batendo nessa mesma tecla até um número suficiente de pessoas entenderem e passarem à ação! E é claro, eu estou sempre disposta para a ação além de bater na mesma tecla!

Esse post é baseado em uma apresentação Power Point que tenho sobre o Modelo de Assistência das Parteiras. Ela começou no começo dos anos 2000 quando eu era ativista junto ao lindo grupo Texans for Midwifery ajudando a promover o Modelo de Assistência em espanhol. O primeiro slide tem essa linda foto da parteira Merideth Klein que morava e atuava em Austin no Texas na época:

Screen Shot 2015-06-18 at 6.29.00 PM

 

Gosto muito dessa foto. O quadro no fundo (não se vê muito bem) tem pessoas de várias nacionalidades e etnias.  Merideth olha sua cliente bem nos olhos, elas estão sentadas confortavelmente em um sofá  conversando em uma postura “horizontal” a distância, física inclusive, entre elas é pouca. Se Merideth não tivesse papel e caneta à mão (ela escreve no prontuário da mulher) veríamos duas mulheres conversando. Essa foto captura pra mim a alma do Modelo de Assistência com o qual eu trabalho e que eu desejo que se multiplique e frutifique tanto no meu país como no mundo: éticaholismo, cuidado, horizontalidade e profissionalismo são alguns dos conceitos à ele associados.

Screen Shot 2015-06-18 at 7.39.39 PM

“E o rei do Egipto falou às parteiras das hebréias (das quais o nome de uma era Sifrá, e o nome da outra, Puá) e disse: Quando ajudardes no parto as hebréias e as virdes sobre os assentos, se for filho, matai-o; mas, se for filha, então, viva. As parteiras, porém, temeram a Deus e não fizeram como o rei do Egipto lhes dissera; antes, conservavam os meninos com vida. Então, o rei do Egipto chamou as parteiras e disse-lhes: Por que fizestes isto, que guardastes os meninos com vida? E as parteiras disseram a Faraó: É que as mulheres hebréias não são como as egípcias; porque são vivas {ou espertas} e já têm dado à luz os filhos antes que a parteira venha a elas. Portanto, Deus fez bem às parteiras. E o povo se aumentou e se fortaleceu muito. E aconteceu que, como as parteiras temeram a Deus, estabeleceu-lhes casas. Então, ordenou Faraó a todo o seu povo, dizendo: A todos os filhos que nascerem lançareis no rio, mas a todas as filhas guardareis com vida. –

Êxodo 1:15-22

Temos no Velho Testamento uma prova histórica escrita da atuação e do serviço da parteira que é sem dúvida uma das profissões mais antigas da Humanidade. O que acho interessante aqui é a “rebeldia”das parteiras hebréias Sifrá e Puá: elas desafiam, porém sem combater abertamente, a ordem do Comandande Supremo, o Faraó, por sua arbitrariedade e injustiça. Elas “temeram a Deus” ou seja elas responderam à uma Ordem por elas considerada superior aquela do Faraó detentor do poder e símbolo do status quo para proteger as crianças hebréias. Na Idade Média elas continuaram desafiando e o status quo e milhares de parteiras foram queimadas no fogo da Inquisição sob a acusação de bruxaria. Paradoxalmente, essa “rebeldia” ou questionamento do status quo, que aparece também no Velho Testamento, desafiava então do poder da Igreja. Mas vemos que essa capacidade de pensamento, decisão e ação autônoma em nome do bem estar das mulheres e suas famílias já vem sendo uma das caractéristica da profissão de parteira desde tempos imemoriais.

Screen Shot 2015-06-18 at 7.58.50 PM

O advento da Obstétrica como especialidade médica data de grosso modo 100, no máximo 200 anos, um tempo ínfimo no contexto da História da Humanidade. A Medicina dita Hipocrática ganhou rapidamente o Mundo Ocidental, sendo portanto hoje conhecida como “Medicina Ocidental”  ou ainda “Biomedicina”. Isso sobretudo durante o final do século XIX e no século XX  com evolução rápida advinda entre outros da teoria microbiana e a descoberta dos antibióticos. As mulheres não foram bem-vindas no começo da História da Medicina assim como em outras esferas sociais e profissionais. No Brasil a primeira mulher a formar-se em medicina o fez em 1887.

Na Europa e na Ásia a parteira foi integrada ao longo do tempo como profissional independente no Sistema de Saúde. Minha parteira Elisabeth Drèves contava como para ela era estranho que sua profissão fosse tão pouco conhecida e marginalizada no Canadá nos anos 90 enquanto em sua França natal, segundo ela, se ela estivesse em um ônibus ou metrô cheio e alguém da Comunidade a reconhecesse imediatamente lhe dariam um assento! Ou seja, em seu país e parte do Continente (Europa Ocidental) se trata se uma profissão reconhecida e respeitada. Porque, quando e como chegamos a esse ponto de se envergonhar, de estranhar a palavra e a profissão de parteira?

Não vou elaborar sobre esse tema! Até por que isso daria um bom post por si só… Vou ater-me a falar do que eu me propus no título!

► O modelo de Assistência da Parteira  baseia-se no princípio de que a gestação, parto e o nascimento são procesos normais da vida de uma mulher. O Modelo de Assistência da Partera inclui:

  • supervisionar o bem estar físico, psicológico, emocional e social da mãe durante o ciclo gravídico-puerperal (as visitas com parteira duram de 30 min à 2 hrs)
  • proprocionar à mãe educação, aconselhamento e cuidado prénatal individualizado, assistência direta continua durante a etapa prénatal, todo o trabalho de parto e apoio na etapa do pós-parto
  • reduzir as intervenções tecnológicas
  • identificar e trabalhar em conjunto dentro um sistema de refêrência e contra-refêrência com o modelo médico/hospitalar para aquelas mulheres que necessitem atenção obstétrica.

►A aplicação deste modelo de assistência centrado na mulher tem comprovadamente reduzido a incidência de feridas nos partos, traumas e nascimentos cirúrgicos.

* Baseado na definição do Modelo de Assistência da Parteira pelo Citizens for Midwifery (Cidadãos pelas Parteiras): http://cfmidwifery.org/mmoc/define.aspx

Ou seja o Modelo de Assistência da Parteira é um Modelo de Assistência Primária e Secundária em Saúde (Baixa e Média Complexidade) enquanto que o Modelo de Assistência da Obstetrícia, enquanto especialidade da Medicina e da Enfermagem, consiste um Modelo de Assistência Terciária ou de Alta Complexidade. São Modelos de Assistência norteados por princípios distintos porém complementares.

O Fundo de População das Nações Unidas editou em 2014 um Relatório sobre a condição das parteiras no mundo. Segundo esse último o mundo necessita urgentemente de 350 000 parteiras treinadas.

UNFPA Report

 

Fotos da Enfermeira Obstétrica Silvéria Santos, sua filha e seu neto e da Obstetriz da EACH-USP cortesia de Bia Fioretti do Mães da Pátria.
Fotos da Enfermeira Obstétrica Silvéria Santos, sua filha e seu neto e da Obstetriz da EACH-USP cortesia de Bia Fioretti do Mães da Pátria.

Ser parteira no Brasil hoje tem várias caras, vários estilos, vários endereços. Meu sonho é que unamos forças e deixemos o que nos divide de lado para buscar na essência da “rebeldia” histórica das nossas ancestrais, irmãs de profissão, a possibilidade de promover um Modelo de Assistência que tenha a capacidade de mudar e fazer avançar de fato a saúde materno-infantil do nosso país. “Rebeldia” essa que deve ser compreendida em sua essência em quanto capacidade de questionamento e de ação face á um sistema vigente arbitrário, abusivo ou injusto.  Essa proposta vai muito além do poder advindo do técnicismo e do reconhecimento institucional.

A antropóloga Robbie Davis-Floyd define o que ela chama de “parteira pós-moderna“:

“Aquela que tem uma atitude relativista em relação a biomedicina e outros sistema de conhecimento como por exemplo o “alternativo” e o indígena, se movimentando com fluidez entre eles para o beneficio das mulheres para as quais ela presta assistência.”

É esse o Modelo de Assistência com o qual eu me identifico, com o qual eu sonho e pelo qual eu luto.

O que estamos esperando?

Screen Shot 2015-06-18 at 9.06.45 PM

Screen Shot 2015-06-18 at 8.52.12 PM Screen Shot 2015-06-18 at 8.52.18 PM Screen Shot 2015-06-18 at 8.52.26 PM Screen Shot 2015-06-18 at 8.52.33 PM

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s