O Amor e o Medo

Para quem está começando o caminho de parteira ou mesmo aquelas que já o trilham a muito tempo, a revista Midwifery Today é um recurso sempre presente. Lá no comecinho do meu percurso como aspirante e estudante parteira no começo dos anos 2000 fui assinante da revista. Muito da informação e dos recursos que elas oferecem na publicação e na Editora me inspiraram e ajudaram na época. O interesse na questão internacional e na diversidade de práticas tanto étnica como cultural da Midwifery Today, também sempre foi uma coisa que me fascinou e ressoa comigo, pois tenho por isso uma paixão e a bagagem “oficial”, lá traz em 1999, de um Certificado em antropologia. Por essas e outras razões sempre tive vontade de participar de uma das Conferências que elas organizam já há muitos anos. As Conferências da Midwifery Today são famosas e em geral acontecem duas vezes por ano uma nos EUA e uma em um outro país.

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Em 2005 tive o imenso prazer e a grandissíssma honra de fazer um estágio com a parteira tradicional mexicana Angelina Martinez Miranda em Temixco cidadezinha ao sul da cidade do México onde Angelina morava e tinha sua “Casita,” uma pequena casa de parto ao lado da sua casa na época. Eu conheci algumas parteiras mexicanas no Texas e  uma jovem parteira de Austin, a querida Natalie Lake, tinha passado um tempo com Angelina e falava muito bem dela. Eu tinha, quando estudante, muita vontade de passar um tempo com uma parteira tradiconal mesmo se isso não contaria oficialmente para a minha formação com a Associação de Parteiras do Texas e que muitas de minhas preceptoras me desencorajaram de fazê-lo. Então em junho 2005 houveram uma confluência de fatores e fomos!

Combinei tudo com Angelina, temos amigos na cidade de Cuernavaca, perto de Temixco, que nos  receberam e então pegamos o carro e fizemos uma viagem familiar desde Austin, na ida em comboio com amigos mexicanos e na volta em família! Foi uma linda experiência para todos em muitos e muitos sentidos. Mexicanos e brasileiros têm muita afinidade. Nessa mesma época, mais ou menos um mês depois, as parteiras Naolí Vinaver Lopez, Cristina Galante e Araceli Gil organizaram uma linda Conferência Internacional na cidade de Oaxtepec onde estiveram pessoas do mundo inteiro entre elas muitos brasileiros e brasileiras. Entre essas pessoas estavam Jan Tritten e Eneyda Spradlin-Ramos, respectivamente a dona e fundadora da Midwifery Today e sua braço direito, que passaram pela casa de Angelina antes da Conferência. Assim pude conhecê-las. Isso foi há 10 anos atrás!

Uma das minhas propostas pessoais, um dos objetivos para esse ano sabático é de usar esse tempo que ganhei de presente para ir a Conferências, formações para a minha formação continuada e aperfeiçoamento profissional e fazer mais contatos. São coisas que não consigo ou tenho mais dificuldade de fazer quando estou em Brasília me dedicando de corpo e alma a atender mulheres e suas famílias em pré-natais, partos e visitas pós-parto. Muitas vezes tenho dificuldades de sair 30 min. da cidade para ir a uma cachoeira onde não tem sinal para celular! Viagens nacionais e internacionais, férias e afins têm sempre que ser muito bem planejadas com meses de antecedência pois não costumo pegar partos para essas épocas e tenho sempre que ter uma cobertura eficiênte de uma colega de confiança quando preciso por forças maiores ou inesperadas me ausentar!

A Conferência nacional da Midwifery Today esse ano foi em Eugene Oregon, a “casa” da revista, onde elas voltam há cada dois ou 3 anos. Pensei que seria uma boa oportunidade para finalmente poder ir a uma dessas Conferências. Ir a esses eventos é sempre dispendioso! Entrei em contato com a querida Eneyda lhe perguntando se teriam a possibilidade de um desconto na Conferência em troca de algum tipo de trabalho para a mesma. Ela estava a caminho de Quíto no Ecuador com Jan para visitar um local para uma Conferência no ano que vem! Mas me respondeu quase que imediatamente que sim precisavam de tradutoras/interpretes para traduzir ninguém menos que Angelina Martines Miranda e também o médico equatoriano Diego Alarcón!  Com ajuda das milhas aéreas então lá fui eu reencontrar Angelina: 10 anos depois!

Foi muito emocionante! Eneyda me recebeu em Portland e em sua casa na cidade de Vancouver no Estado vizinho de Washington para o pernoite e no dia seguinte seguimos de carro para Eugene. Eu apenas estive no Estado de Oregon uma outra vez. Foi na pequena e deliciosa cidade de Ashland para fazer uma formação do método Calm Birth com Bruce Newman em 2008. Na volta passei algumas horas no Centro de Portland pois tinha muito tempo de espera entre um vôo e outro. Oregon nos Estados Unidos é conhecido como um Estado progressista. Costumo brincar que é o Estado com a maior concentração de estúdios de yoga, restaurantes vegetarianos e pessoas com a mente aberta por metro quadrado! Gostei de Oregon em 2008! Gostei de voltar por lá em 2015! A certificação ou licenciamento das parteiras no Estado de Oregon, pra vocês terem uma ideia no nível dessa abertura de espírito, é voluntária!

Logo na chegada em Eugene pude ter a honra de participar de uma reunião discutindo o futuro e os projetos do Global Midwifery Council. Foi muito interessante e entre as maravilhosas convidadas para essa reunião estava Hermine Hayes-Klein diretora da ONG Human Rights in Childbirth que mora em Portland. E no dia seguinte emoção total: reencontro com Angelina pra quem eu e minha colega interprete Emelyn fizemos a tradução do workshop de Pré-Conferência de dia inteiro sobre práticas tradicionais mexicanas! Tive direito á arrepio e frio na espinha de emoção em um lindo abraço! E também ganhei de presente no final do workshop: receber como modelo um fechamento (cerramiento) com o rebozo que eu incorporei na minha prática como parteira mas que nunca recebo! Só emoção!

Eneyda, Jan e sua irmã no dia de reuniões e preparações
Eneyda, Jan e sua irmã no dia de reuniões e preparações

Só me dei conta o quanto eu precisava de um dos temas que estava sendo tratado na Conferência, Amor e Medo no parto (o título da Conferência foi “Parir com Amor Muda o Mundo”), na tarde do primeiro dia oficial da Conferência depois de dois dias de Pré-Conferência! Eu estava traduzindo para Diego Alarcón em uma mesa redonda que ele dividia com Sister Morning Star (parteira da Nação Nativa Norte-Americana Cherokee) e Eneyda sobre Medo no parto vs Amor no parto. Sister falava, eu traduzia ao pé do ouvido para Diego. Ela nos contou que quando recebe um bebê lhe dá uma Benção tradicional Cherokee levando-o á luz do sol ou da lua dependendo de quando tenha nascido: “Que você possa saber por que você veio á essa vida”.  Ao final de sua linda apresentação ela pediu que nós, que a ouvíamos, encontrássemos um parceiro e que lhe disséssemos a Benção Cherokee. E Diego foi além, me perguntou baixinho: e vc sabe porque você veio a essa vida? E eu pega de surpresa respondi: acredito que uma das razões é ser parteira! E repliquei: e você, sabe? E ele respondeu: “certa vez uma mulher brasileira me disse que eu vim á essa vida para combinar o saber cientifico com o saber tradicional”! Mas além disso os dois falaram e me lembraram de algo muito importante que ressoou em mim junto com a certeza de estar nessa vida para partejar.

Canção Cherokee por Sister Morning Star

Enquanto seres humanos temos um centro básico onde reside o medo. E esse sentimento foi selecionado por milhões e milhões de anos como algo de funcional para os seres vivos. O instinto de lutar ou fugir frente a um predador é acionado pelo medo e o estresse que iniciam uma cascata hormonal que nos permite mecanismos biológicos de defesa e sobrevivência. As catecolaminas são os hormônios do estresse e do medo. O medo é então um instinto básico de sobrevivência e por tanto útil! No extremo oposto temos o centro básico onde reside o amor. E o amor e o medo estão em lados diametralmente opostos do espectro de vivências humanas. Inclusive nos processos hormonais que eles desencadeiam. O amor e suas diversas expressões concretas e abstratas fazem com que secretemos o hormônio ocitocina, popularmente chamado de O hormônio do amor. E é precisamente esse hormônio, a ociotcina, que faz contrair nossos úteros (e os pênis também!) no orgasmo e no parto! Ou seja para secretar ocitocina e não catecolaminas a mulher em trabalho de parto precisa de: amor e cuidado. Isso é o ABC do parto natural, Michel Odent (que também estava na Conferência da MT do alto dos seus 85 anos!) nos ensina isso há décadas!!!

Pois é,  na teoria é sempre mais fácil, mais bonito, mais simples! Na prática, na vida, na vivência, na experiência, somos humanos, seres infinitamente complexos, e, como dizia Sister, muitas vezes, a maioria delas, o núcleo básico do medo vence, e eu adiciono: mesmo tendo estudado e acreditando em Leboyer et Michel Odent! Somos por vezes limitados. É uma realidade humana que temos que aceitar! Todos envolvidos com parto e nascimento, profissionais e usuários, independente do modelo de assistência que sigam (citando a querida Robbie Davis Floyd também presente na Conferência: tecnocrático, holístico, humanista, pós-moderno) ou acreditem vão se deparar em algum momento com o medo. Faz parte da experiência de ser Humano, de estar vivo. E o trabalho não é erradicar o medo mas, como eu já disse em um post anterior, não deixar que ele nos paralise. Conviver com ele  da maneira mais positiva possível para que possamos viver nosso pleno potencial individual e coletivamente. Ou seja: precisamos conectar com o amor. O amor na vida, na experiência, na prática. Pra mim essa é a definição de coragem, que em português e algumas outras línguas vem da palavra latina “cor”: coração.

O medo nos faz estudar, preparar-nos, agir e vislumbrar distintos ângulos trazendo um grande peso. Partindo do amor, podemos fazer exatamente as mesmas ações de uma maneira bem mais leve! A diferença é o espaço que habitamos que moverá em seguida nossas intenções. E esse espaço é sempre, é claro, em parte definido por nossas experiências e história pessoal. Daí a importância de almejarmos sempre um caminho de auto conhecimento e desenvolvimento pessoal. Conferências como as da Midwifery Today buscam nos levar para esse espaço interno, esse centro básico do amor. E como precisamos, meus amigos, banhar nesse espaço! Desejo que vocês,  eu, nós, possamos banhar nesse espaço, conectando-nos com nosso centro básico do amor, hoje, agora e sempre. Para que assim possamos,  como deseja a Benção Cherokee, então encontrar nossa missão nessa vida, não esquece-la e lutar por ela apesar das dificuldades e do medo! Deixo-os com um dos meus textos cristãos preferidos, A Carta de Paulo aos Coríntios:

1 Coríntios 13
1 ¶ Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine.
2 E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria.
3 E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.
4 ¶ O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece.
5 Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal;
6 Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade;
7 Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
8 ¶ O amor nunca falha; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá;
9 Porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos;
10 Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado.
11 Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino.
12 Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido.
13 Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor.

No dia seguinte, quando todos se foram, uma última mensagem deixada no saguão do Hotel!
No dia seguinte, quando todos se foram, uma última mensagem deixada no saguão do Hotel!

 

 

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