A vida leva e traz

“É sobre-humano amar
‘cê sabe muito bem
É sobre-humano amar sentir doer
Gozar
Ser feliz
Vê que sou eu quem te diz
Não fique triste assim
É soberano e está em ti querer até
Muito mais

A vida leva e traz
A vida faz e refaz
Será que quer achar
Sua expressão mais simples”

José Miguel Wisnik

Dizem por aí que lidar com parto, falar dele, trabalhar com ele, vivência-lo, é complexo por que ele engloba grandes tabus: sexo, relações de gênero, morte. Tem se falado cada vez mais da relação entre parto e sexo. Muita coisa aparece colocando essas duas palavras em um motor de pesquisa na Internet. Inclusive o excelente filme Parto Orgásmico. Estamos então pouco a pouco quebrando essa barreira. Mas um assunto que é um tabu e que ninguém gosta de falar, mesmo, nunca se possível, é a morte.

Esse Blog é dedicado ao ano sabático que estou passando com minha família no Canadá. Muita gente confunde (por que é confuso mesmo!) minha estadia no Canadá com a dos Estados Unidos. Em 1990 vim para o Canadá com minha mãe Sonia Terra. Ela era médica sanitarista e sempre quis fazer pós-graduação no estrangeiro. Em 1990 ela conseguiu uma bolsa da CAPES e veio, trazendo eu e minha irmã a tira-colo, fazer um Mestrado em Administração dos Serviços de Saúde na Universidade de Montreal. Em outubro de 1991 conheci a pessoa que é hoje meu marido e em 1995 nos casamos, em  1997 tivemos nosso primeiro filho, em 1999 a segunda filha em 2001 fomos para o Texas os dois estudar e tudo isso é história! História essa que se origina nos ventres de duas mulheres que se foram.

Esse terceiro post demorou por que minha querida sogra Janine Turgeon Sylvain se foi no dia 20 de janeiro de 2015. Precisei de um tempo para me recolher, para chorar, para pensar, para ler. E agora, mesmo com a garganta embargada, os olhos cheios de lágrimas, sinto a necessidade de escrever esse capítulo, parte desse ano sabático. Janine era a 11a de 13 irmãos, a 4a de 5 meninas. A mãe deles, como muitas mulheres da época se foi, cedo com 55 anos, deixando Janine na flor da idade com 12 anos.

Janine e irmãs
Janine (a pequena de franjinha) com as irmãs e o irmão mais novo.

Muita gente sabe que minha mãe Sonia Terra também se foi no dia 12 de fevereiro de 2013, uma terça-feira de carnaval. No hospital 3 dias antes de ir-se, Janine me disse: “Vou encontrar sua mãe”.  Elas tinham uma admiração mútua e uma relação de carinho e amizade. Compartilhavam o fato de ter uma única neta mulher, minha filha Aysha.

Sonia Janine e Aysha
Grand-maman Janine, Aysha (com 1 ano) e vovó Sonia

A morte é uma das poucas certezas que temos na vida. Sempre admirei o trabalho da psiquiatra Elisabeth Kübler-Ross. Ela foi uma das pioneiras no trabalho de e dedicou sua vida à entender e ajudar as pessoas a beira da morte e aqueles que ficam. As fases do luto que ela identificou me ajudam hoje e me ajudaram muito em diversas fases da minha vida e no meu trabalho. Por que sim, quem trabalha com parto por muito tempo acaba, um dia ou outro, irremediavelmente encontrando  com a morte. Infelizmente, mesmo nos países com os melhores indicadores de saúde materno-infantil, nos melhores sistemas de atenção ao parto e nascimento, não conseguiram erradicar a morte. É um fato. Dito isso: respiremos, tomemos um copo d’água, até deixemos aquela lágrima contida cair, façamos uma necessária pausa e sigamos! Sigamos por que o maior antídoto ao medo é a coragem e o mais importante, sempre, não é como morreremos e sim como vivemos.

A partida de minha mãe e da minha sogra deixarão pra sempre um vazio. Os processos de luto se sobrepõe. Mas as vidas delas nos deixaram com corações muito cheios. Ninguém é perfeito. Ninguém faz unanimidade. Me incomoda nos ritos funerários de adeus quando as pessoas viram santos perfeitos! Por isso eu propus no rito funerário de minha mãe que em circulo todos os presentes que sentissem a necessidade se pronunciassem do seu jeito sobre o que minha mãe deixou para eles. Foi muito emocionante e muito profundo. E em homenagem a Sonia e a Janine gostaria de fazer aqui o mesmo exercício.

A vida é poesia, basta abrir os olhos. Minha cunhada me ofereceu em novembro passado um dos melhores presentes de aniversário (que é em agosto) que eu já recebi: um dia em um spa nórdico. Ela escolheu o Spa La Source um lugar mágico. O princípio do spa nórdico é de alternar banhos quentes (39, 40 G Celsius) ou saunas (à vapor ou seca) com banhos frios (10 G Celsius) externos (quando fomos a temperatura externa era de mais ou menos 0 á -2 Graus!) e um periodo de relaxamento. Eu não sou muito de banhos frios! No primeiro ciclo entrei na piscina fria até a canela! No segundo até a cintura e no terceiro e último de corpo inteiro! E é muito impressionante! Quando se entra na água fria depois de estar hiper-aquecido primeiro seu corpo parece que vira cimento! Depois quando vc sai e vai pra o relaxamento a sensação é incrível: de fato seu corpo e sua mente relaxam muito mais, é uma sensação de plenitude! Estou contando isso por que nos últimos dias me veio um insight: a convivência em alternancia com minha mãe e minha sogra, com o Brasil e o Quebec, que elas representam no meu coração, me trouxe a plenitude de quem sou hoje.

Spa La Source em Novembro 2014
Spa La Source em Novembro 2014
Entrando no Spa com minha cunhada
Entrando no Spa com minha cunhada

O que não param de dizer é: que bom que vocês estavam aqui (ou aí dependendo de onde a pessoa esteja). Pois é, eu sou dessas que não acredita em coincidências. Não só estamos aqui como estamos em um apartamento vizinho ao apartamento dos meus sogros. Também voltamos pro Brasil em 2009 no mesmo ano em que, finalmente depois de muito tempo, o Governo Federal abria muitas vagas para professores em Universidades pelo Brasil a fora. O Mathieu conseguiu uma dessas vagas. Em 2011 minha mãe foi diagnosticada com câncer no seio em estágio IV. Estamos onde e quando precisamos estar, assim é a vida e provavelmente também a morte.

Em setembro fui a um dos vários passeios que pude fazer com Janine nos últimos meses. Fomos ao Musée de Beaux Arts de Montréal do qual ela era sócia VIP com muito orgulho. Vimos uma exposição sobre Fabergé o joalheiro dos Tsars russos e depois fomos almoçar juntas.

Janine setembro 2014Setembro 2014

As duas Janine e Sonia, cada uma do seu jeito, eram mulheres fortes, corajosas, destemidas, inovadoras, generosas para quem a família era um pilar de força e inspiração. Isso tudo e muito mais elas deixaram pra mim.

Sonia em 2008 no Natal com a família reunida
Sonia em 2008 no Natal com a família reunida
No almoço após a Marcha das Parteiras em 2011 cortesia de Bia Fioretti
No almoço após a Marcha das Parteiras em 2011 cortesia de Bia Fioretti

Deixo vocês com a poesia e música (que segundo Bob Marley é a alma da vida) de José Miguel Wisnik (que sabe muito bem o que significa perder as pessoas que mais amamos) na voz de Zizi Possi.

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4 thoughts on “A vida leva e traz

  1. Querida Paloma, estava ansiando pelo próximo post, mas sabia que o momento era delicado e até imaginei que fosse demorar mais tempo para que ele saísse.
    Não sei se pela gestação, ou pq sou manteiga derretida mesmo, mais me emocionei com cada palavra tecida neste texto.
    Assim como nossas conversas aqui no Brasil, ler seu post me fez lembrar das minhas aulas de tanatologia, no último semestre da faculdade, quando após passar pelo estágio na UTI, percebi que morte me assombrava muito, apesar de minhas crenças espiritualistas.
    Estudando tanatologia, descobri a obra de Elizabeth Kluber-Ross e então a dúvida veio…quero seu parteira dos que estão chegando, ou quero partejar os que estão indo?
    Fiquei dividida e na dúvida, se queria trabalhar com Obstetricia ou Cuidados Paliativos, os dois me atraiam, e aos poucos a vida foi me conduzindo para o meu caminho.
    E hoje entendo o pq da dúvida, pois na verdade tando a chegada quanto a partida, são ritos de vida e morte, e precisam de presença, conexão, entrega e a clareza de que não há espaços para a certeza.
    2014 foi um ano dificil, mas um dos maiores aprendizados e presentes que tive foi sua entrada em minha vida!
    Saudades de você e paz à todos de sua família.
    Rafinha!

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    1. Querida Rafinha, eu que ganhei de presente do Universo a sua presença de luz na minha vida! Agradeço todos os dias! Vc será uma mãe maravilhosa e uma grande parteira. Tb achei que o post fosse demorar mais. Porém a inspiração veio e eu segui, pra variar!! Bjão

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  2. Oi, Paloma! Que reflexão linda! Adorei saber mais dessas mulheres que tanto te inspiram. Com certeza, estamos no lugar certo na hora certa. A vida sempre nos presenteia com essa certeza de que há uma razão para tudo. Que seu coração encontre paz e que a gratidão pelo convívio com as duas se sobreponha à dor. Abraços saudosos…

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