Livros, História e Medicalização do Nascimento

Esse mês de dezembro meu filho mais velho Yuri vai fazer 17 anos. Ele nasceu na Casa de Parto (Maison de Naissance) Côte-des-Neige em um dia lindo onde caia uma neve bem fina, meu melhor presente de Natal! Foi também meu primeiro e mais profundo mergulho no mundo do parto e nascimento. Por isso e muitas outras coisas eu sempre lhe serei grata meu filho!

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Em 1997 as Casas de Parto na Província de Québec, assim como as parteiras profissionais (autônomas), estavam em um período de projeto-piloto. Era a fase de teste para ver se dava certo esse negócio de parir com parteira! De lá até aqui muita coisa mudou tanto para as parteiras e as Casas de Parto do Québec quanto para mim e o Yuri!

Então foi com grande alegria que participei do lançamento do livro L’Histoire de l’accouchement dans un Québec Moderne  (A História do parto em um Québec Moderno)  de Andrée Rivard na quinta-feira passada dia 27/11. Também celebrava-se 20 anos de Casas de Parto e parteiras integradas no Sistema de Saúde na Província de Quebec!

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O lançamento foi na Casa (Maison) Parent-Roback num edifício no bairro histórico do Velho Porto de Montreal. É um edifício que abriga vários Organismos de Ação Comunitária pelo direito das mulheres entre eles o  Regroupement Naissance Renaissance (Coletivo Nascimento Renascimento) que atua há 30 anos na cena dos direitos das mulheres no período perinatal entre outros reagrupando diversos Grupos da Província que trabalham sobre o mesmo tema. Também apoiaram o lançamento o Regroupement Les Sage-femmes du Québec e o Groupe MAMAN uma Associação de usuárias da qual eu fiz parte de 1998 à 2001 antes de sair do Québec!

Foi tudo muito significativo como vocês podem perceber! Pois lá estavam pessoas com quem eu convivi 17 anos atrás que continuam firmes e fortes no ativismo! Foi uma nova visita ao Regroupement Naissance Renaissance, a última  foi em 1999 gestando minha filha Aysha! Uma viagem histórica em todos os sentidos! Inclusive de reconexão com a minha história. Houve uma leitura de passagens do livro por uma membro do Groupe MAMAN que é atriz a emoção na sala cheia era palpável! Não tive nem coragem te tirar fotos por respeito ao momento!

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Agora uma coisa sempre me chama atenção: como fora do Brasil se fala de medicalização do parto e como no Brasil não é um tema que é muito discutido. No Brasil o que prima sempre é a “humanização do parto”.  Quase nunca ouço ou leio debates, reflexões, inquisições (nos dois sentidos da palavra) sobre a “medicalização do parto”. “Medicalização” no Brasil sempre está associada ao excesso de cesáreas, o que é compreensível. Mas por aqui “medicalização” fala de: hospitalização, procedimentos sem indicação, monopólio médico do parto, etc. Ou seja uma visão totalmente crítica do Modelo de Assistência Obstétrico. E sempre me perguntei: porque será que existe essa diferença? Não sei ao certo…mas sinto que é quase um tabu falar de medicalização do parto no Brasil como um questionamento mais além do excesso de cesáreas. Parece que isso incomoda de alguma forma. Ao mesmo tempo, o fato do parto ser um evento médico, estar no âmbito médico e acadêmico aparentemente não pode ser muito questionado. Um dos meus primeiros trabalhos da minha formação de parteira no Texas foi sobre a História das Parteiras. Assim, bem geral. É impossível olhar honestamente para a História do parto e nascimento e da profissão de parteira e não ver  a medicalização do parto e nascimento entre outros como uma questão de gênero, de classe e de poder. A contracapa do livro de Andrée Rivard diz assim no segundo parágrafo: “(…) Longe de ter efeitos favoráveis, a medicalização do nascimento é um fenômeno muito controverso. (…)” Tá aí, quem sabe é essa controvérsia que gera dificuldades no Brasil! Temos muitos médicos, médicos do bem, que estão aí desde começo no “Movimento pela Humanização do Parto e Nascimento”, outros que chegaram agora ou há pouco e que bom! Quem sabe, somente, quem sabe queremos evitar controvérsias demais? Será?

Outro feliz re-encontro que fiz no lançamento foi da pesquisadora e autora Hélène Vadeboncoeur. Hélène é a autora do excelente livro: Parto Natural: Mesmo Após uma Cesárea que acaba de ser lançado no Brasil em português pela primeira vez em outubro! Fiquei muito feliz de revê-la e creio que foi recíproco! Ela está trabalhando em lançar uma parte do site dela em português em muito breve. Com informações e relatos. É um livro excelente que eu já disponibilizava para minhas clientes em inglês. Agora isso será possível em português!  Hélène é uma pesquisadora de primeiríssima! Ela me pediu alguma ajuda e dicas nas traduções do site para o português e fico muito feliz em poder ajudar. Quanto mais informações de qualidade tivermos disponível mais fácil será empoderar as mulheres para que possam fazer escolhas conscientes.

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Conheci também a Jessica Gerlach uma imigrante de Curitiba que mora há 5 anos aqui e está fazendo seu mestrado em Sociologia na Universidade de Montreal. Ela pensa trabalhar com a Comunidade de Imigrantes brasileiras por aqui creio entender sobre a percepção do parto ou ainda as experiências de parto. Conversando com ela e Hélène, já que essa ultima não pode ir ao Brasil para o lançamento do livro em português, surgiu a ideia de um lançamento do livro da Hélène  para a Comunidade Brasileira do Quebec! Vamos ver se essa ideia se concretizará!

Deixo pra vocês minha tradução livre da dedicatória da Andrée Rivard:

“Para Paloma: Devemos nos acomodar da herança ou reinventa-la a nossa maneira? Essa é a questão! Boa Leitura!”

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