Primeira vez! e Conferencia da CAM/ACSF

E aqui vou eu nessa aventura de escrever um Blog! A primeira vez! Aqui vamos nós!!

E vou começar contando pra vocês como foi a minha ida a cidade de Saskatoon, na Província de Saskatchewan (o Canadá é composto de 10 Províncias, equivalente aos nossos Estados, e 3 Territórios Federais), para a Conferência Anual da Associação de Parteiras do Canadá.

O Canadá como o Brasil é um país de dimensões continentais. Eu saí de Montreal, na Província de Quebec para Saskatoon de avião, tive que fazer 2 conexões na ida e uma na volta!  Saskatoon é uma cidade pequena para padrões brasileiros, tem 200 000 habitantes, mas mediana para padrões canadenses: o país inteiro tem 35 milhões de habitantes enquanto que só a região metropolitana de São Paulo tem 19 milhões. Os referenciais são diferentes! É uma cidade universitária. Não tive muito tempo para turismo. O hotel da Conferência ficava no Centro da cidade e pude andar um pouco pelas ruas em volta. Também peguei um taxi e fui a um mercado não muito longe.

 

 

As caixas de eletricidade ao lado dos semáforos tinham pinturas relacionadas a cidade. Achei bem interessante!

Outra coisa que achei bem interessante foi que senti mais a presença das Primeiras Nações. Acima estão o Instituto de Tecnologia e o Banco.

O Hotel ficava bem próximo ao Rio Saskatchewan e tem uma calçada que permite andar a beirada que me lembrou o caminho do “Town Lake” em Austin no Texas.

A Conferência foi muito boa. Logo de cara foi muito positivo ver que as pessoas vêm de várias regiões para participar. Eu participei como observadora da Assembleia Geral da Associação e creio que haviam representantes de quase todas as Províncias. Ontario foi a primeira Província a regulamentar profissão de parteira enquanto profissão autônoma incluindo-a na cobertura do Sistema Público de Saúde Canadense (que é público e universal como o SUS). Aqui vale a pena fazer um parêntesis por que o Sistema de Saúde Pública Canadense, apesar de não ser perfeito, longe disso, é um valor que o Povo canadense tem. Valor no sentido que eles não só valorizam mas acreditam no conceito da saúde ou dos serviços de saúde como um direito e não um bem de consumo. Mesmo com o atual Governo Federal que é de centro-direita, apesar de haverem cortes e reformas, nunca questiona-se o serviço de saúde público como direito da população. E todo mundo usa o mesmo não existe um Sistema Privado paralelo. A administração dos serviços é decentralizada para as Províncias como o que acontece no SUS. Então as parteiras canadenses também têm este diferencial, este valor, elas acreditam que os serviços das parteiras devem ser cobertos pelo Sistema de Saúde Público. Isso é um consenso, quase um tabu! E essa integração tem sido feita aos poucos nos últimos  20-25 anos desde Ontario que é a Província com o maior número que parteiras em atividade atualmente: 680. Algumas Províncias ou Territórios ainda não integraram as parteiras como a Ilha do Príncipe Eduardo outras ainda não têm nenhuma (New Brunswick) ou poucas (Nova Scotia, Saskatchewan) em atividade falta de terem um programa de formação e/ou financiamento e/ou apoio do Governo local. (Em outro momento prometo fazer um post mais detalhado sobre esse assunto que rende muito pano para manga!!)

Voltando a Conferência! Houveram muitas palestras interessantes. Houve um formato diferenciado baseado no TEDtalks que elas chamaram de CAMtalks que foi muito bacana. Foi uma Plenária com palestras curtas de 10 ou 15 min cada uma com ideias provocantes e/ou inovadoras em assuntos variados que iam de farmacologia, á fertilidade passando por VBAC e ampliação da atuação da parteira. Gostei muito desse formato! Permite que possamos abrir para uma quantidade maior e mais variada de temas e palestrantes. Mas eu vou me concentrar em 4 palestras que acho que vale a pena falar mais em detalhes.

Primeiramente, a palestra das parteiras Inuits (o nome correto dos “Esquimós”) de Puvirnituk.

E vamos fazer um close na terceira foto (desculpem o ângulo a sala estava cheia, eu sentei no chão no lado!):

2014-11-07 11.18.40

Tem um mapa da Região da Bahia de Hudson que é no Território Inuit de Nunavut e ao lado está escrito: “Nós vivemos em uma região remota, mas com a confiança das mulheres Inuit o parto normal vaginal tem sido um sucesso no Norte”. A história da Casa de Parto de Puvirnituk é muito bonita! É uma das pioneiras no Canadá. Ela é contada em um documentário muito emocionantes chamado Birth Rites (prometo também um outro post sobre os 3 filmes que assisti no Festival de Filmes sobre Parto incluído na Conferência!)  Resumidamente, como em muitos países do mundo (isso vem acontecendo também no Brasil), os Governos decidem que a melhor maneira de prestar serviço em saúde materno-infantil a populações Nativas em regiões remotas é de retirar as mulheres de suas Vilas, Aldeias e leva-las para grandes centros para que elas possam parir com a “segurança” e “conforto” de um hospital moderno. A mulher é obrigada então a deixar sua família, seus costumes e sua terra para ir parir em uma cidade estranha. Até 1986 era também o que acontecia da pequena Aldeia Inuit de Puvirnituk. Mas desde então tudo mudou! As parteiras locais “voltaram” das cinzas e a Casa de Parto local funciona desde então com um índice de pasmem vocês: 3% de cesarianas! Além de devolverem a dignidade as mulheres e suas famílias (os problemas sociais também foram afetados pela mudança), os serviços das parteiras na Casa de Parto têm estatísticas impecáveis há décadas, inclusive taxas baixíssimas de intervenções. A Casa de Parto de Puvirnituk é um lindo exemplo de como tradição e modernidade podem trabalhar juntos, de braços dados para o bem estar do ser humano.

No mesmo tema quero mencionar também a palestra da parteira Lesley Paulette do Vilarejo de Forth Smith situado nos Territórios do Norte Oeste também uma região remota. Ela teve uma palestra maior em uma Plenária contando o histórico e os resultados da Maternidade. Lesley é de origem Mohawk uma das Primeira Nações Norte Americanas. Uma Senhora de meia idade com muito carisma e energia! Ela nos contou de suas mentoras as parteiras antigas de Forth Smith e de como começou seu trabalho partejando em troca de uma galinha aqui, uma reforma em sua casa ali! E disse para a plateia: comecem a partejar que as mulheres chegam! Contou como, depois de que mais de 50% das mulheres da comunidade decidiam ficar e parir com ela e sua parceira, finalmente as autoridades do Serviço de Saúde aceitaram sentar para conversar! E depois de ganhar um terreno e nele plantar uma placa que dizia: “Futuro local da Casa de Parto de Forth Smith”, ela e a parceira um dia finalmente conseguiram arrastar representantes do Ministério da Saúde para o terreno e insistir que elas precisavam de uma estrutura autônoma!  Forth Smith é outro exemplo de como Tradição e Modernidade podem trabalhar juntos para o bem de uma Comunidade oferecendo uma assistência adequadas as necessidades específicas (culturais inclusive). Também um outro exemplo de como um grupo de mulheres pode em associação, com parcerias se organizar e recuperar sua autonomia e dignidade e assim ter um efeito sobre uma Comunidade inteira. Como Puvirnituk, Forth Smith tem estatísticas impecáveis apresentadas em outra palestra pela professora Patricia Janssen (uma das autoras do estudo Outcomes of planned home birth with registered midwife versus planned hospital birth with midwife or physician) e sua associada Caitlin Frame que fizeram um estudo na Casa de Parto de Forth Smith recentemente.

A Casa de Parto de Forth Smith tem como Centro de Referência a cidade de Yellowknife para transferências. E o Diretor clinico do Departamento de Ginecologia e Obstétrica do Hospital Stanton de Yellowknife Dr. Andrew Kotaska estava presente na Conferência e fez duas palestras. A primeira foi sobre evidências fisiológicas de como um nascimento em dois tempos  contribuir para a redução de distocia dos ombros discutindo qual o tempo ideal de espera entre a cabeça e o corpo. Vale dizer aqui que o método ensinado à maioria dos obstetras e parteiras também (eu aprendi assim) é de “ajudar” o bebê a sair imediatamente em uma contração sem espera logo após a cabeça. Depois de um tempo e consequente ao meu estágio com a parteira mexicana Angelina Martinez Miranda eu entendi que o melhor era de esperar em dois tempos: uma contração para a cabeça e o corpo nasce na próxima. Sempre pratiquei assim. Foi interessante ouvir as evidências científicas  de que isso é o melhor para o bebê! Na mesma palestra ele também falou das evidências sobre os benefícios do corte tardio do cordão como um sistema natural de reanimação neonatal. O Dr. Kotaska também é conhecido por sua experiência em manejo de partos pélvicos. E a sua outra palestra, em uma sala menor, foi sobre este tema. Ele é um dos autores das Diretrizes sobre partos pélvicos vaginais da Sociedade Canadense de Obstetrícia e Ginecologia. Mais uma vez ele ganhou minha admiração demonstrando seu entendimento da fisiologia do parto, seu comprometimento com a mesma e a segurança e o entendimento da colaboração com as parteiras. Ele fez entre outros uma residência em uma Maternidade na Alemanha especializada em partos pélvicos vaginais. A palestra era sobre como lidar com aquele parto pélvico surpresa com dois estudos de caso que ele atendeu. Novamente muito interessante.

Finalmente quero prestar uma homenagem a algumas das mulheres que conheci ou revi.

2014-11-07 10.27.19

Essa é Adriana Guerra mãe, doula, empresária e a orgulhosa proprietária da Empresa Mamamor que fabrica lindíssimas  bonecas artesanais customizadas que parem, amamentam e levam seus bebês em lindos e coloridos slings! Adriana é uma simpatia! Ela é casada com um canadense e vive na cidade de Edmonton com sua família, marido e 3 filhos. Ela é originária do nosso vizinho Uruguai.

2014-11-06 19.08.14

Tive um feliz encontro com a parteira Lucie Hamelin que é atualmente Diretora do Curso de Parteiras (sage-femme) da Universidade do Québec em Trois-Rivières o único curso de formação de parteiras da Província de Québec. Por coincidência eu sentei ao lado de Lucie no workshop de sutura avançada que fizemos no primeiro dia! Logo em seguida na saída encontramos Céline Lemay uma outra parteira quebequense atualmente professora do curso e trabalhando a escrever um livro sobre fisiologia sob o ângulo das parteiras. Conheço Céline já há um tempo! E por indicação minha ela esteve na Conferência Internacional da ReHuNa em 2011 em Brasília. Foi ótimo revê-la! Ela também esteve no Brasil em outubro passado  na Conferencia Normal Labour and Birth em Búzios. Foi um grande prazer e honra estar com estas duas mulheres de grande experiência e sabedoria. Elas fazem parte da história da profissão de parteira no Québec. Lucie já foi presidente do Regroupement des Sages-femmes du Québec  que é hoje a Associação de parteiras da Província. Enquanto que a Ordre des Sages-femmes du Québec como Conselho profissional faz valer a regulamentação da profissão e a proteção do público. Elas viveram todas as etapas: desde a organização do movimento nos anos 70 e 80, à luta pelo reconhecimento nos anos 80 e 90 até hoje e atenderam muitos partos!

2014-11-07 12.40.07

O National Aboriginal Council of Midwives (NACM) é a Associação de promoção das parteiras das Primeiras Nações. Acima duas das membros do Conselho Diretor. A Presidente de saída a esquerda e a direita Evelyn que já morou no Brasil “em uma outra vida” segundo ela, antes de tornar-se parteira. A Conferência do NACM foi logo em seguida perto de Saskatoon. A presença das parteiras aborígenes foi grande durante toda a Conferência com palestras muito emocionantes sobre as dificuldades passadas e presentes mas também os ganhos e avanços atuais. Tivemos algumas apresentações de canções tradicionais sempre acompanhadas do tambor ritual e a linda, emocionante e inspiradora palestra de fechamento foi feita pela muitas vezes premiada professora e autora Maria Campbell de origem Métis, bisneta de parteira.

Já estou me programando pra ir a Conferência Trienal da International Confederation of Midwives (ICM) que será em Toronto em 2017 em parceria com a CAM! Quem sabe encontro alguma de vocês por lá!

2014-11-07 13.12.14

Bom acho que para uma primeira vez está bom!! Até a próxima pessoal!

2014-11-07 13.15.31

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s