Os movimentos da vida

Ter uma vida meia nômade traz ciclos, etapas, movimentos tanto materiais como emocionais. Preparações para partir, preparações para voltar! E é nesse movimento de volta que me encontro nesse momento. Data marcada pra voltar, coisas pra resolver enquanto o ano que virou meses, vira semanas e agora vira dias! Teimo em confiar e tentar me entregar (um eterno exercício!) aos ciclos da vida, por causa das razões que os olhos, a mente e muitas vezes até o coração, em um nível consciente, desconhecem.

Como já mencionei nesse post aqui pude no final do ano passado, ainda no começo no inverno e do ano sabático, re-encontrar a querida Hélène Vadeboncoeur autora e pesquisadora em um lindo evento comemorativo. Depois disso trocamos alguns e-mails e ela mencionou a possibilidade de fazer uma visita de um Hospital de Nível Secundário em sua região que é segundo ela um dos Modelos de um Novo Paradigma de Assistência no Québec e um dos melhores lugares para parir. Com o agravamento e falecimento da minha sogra infelizmente tive que interromper por um tempo o contato com Hélène. Qual não foi minha surpresa quando recebo uma mensagem no começo de julho me convidando para a visita pois além de mim um obstetra brasileiro membro do Colegiado da ReHuNa estava de férias visitando a região e queria conhecer algum Serviço Obstétrico por aqui. Esse médico é o Dr. Bráulio Zorzella que eu conhecia apenas vagamente de nome por ver seus posts no Facebook.

Lá fomos nós então! Busquei Bráulio pela manhã no seu Hotel e seguimos rumo a pequena cidade de Dunham perto da fronteira americana com o Estado de Vermont. Logo pela manhã uma surpresa, Hélène me telefona e avisa: “Não poderemos ir visitar o Hospital, hoje pela manhã saiu em um jornal de grande circulação na Província uma noticia relacionada a morte de uma mãe e um bebê nesse Hospital em maio passado!” Menciono esse fato não por terrorismo. Acredito, como bem colocou a parteira e fotógrafa Hariette Hartigan, que parir seja tão seguro quanto viver. E isso significa uma naturalidade mas também um realismo na minha maneira de enxergar, viver e prestar Assitência ao parto. Não existe vida sem risco assim como não existe parto sem risco. Mas temos a possibilidade de escolher como viver e como parir dentro dos limites do possível e de uma necessidade primária de auto-preservação e preservação da Espécie. Isso tudo significa também encarar a gestação, o parto e o pós-parto imediato, mas sobretudo o parto como um portal, um rito de passagem. Portal esse onde se misturam de maneira profunda vida e morte, dor e delícia. Como eu já disse antes não existe infelizmente nenhum lugar no mundo atualmente onde as taxas de mortalidade materna e neonatal sejam nulas.

Mesmo com um Modelo de Assistência “ideal” e adequado uma pequena porcentagem de mães e bebês ainda morrem e isso em qualquer local (domicilio, hospital, casa de parto, centro cirúrgico). Infelizmente tanto no Brasil como em outros lugares do mundo os Sistemas de Assistência ao Nascimento de tipo Primário e Secundário sofrem constantes ataques e pressões da parte da Mídia e das Associações Profissionais Médicas mesmo sendo comprovado estatisticamente que suas taxas de mortalidade não são mais elevadas que  as dos Sistemas Terciários. Por isso a Equipe pensava que não iriamos conseguir visitar o Hospital de Brome-Missisquoi-Perkins da pequena cidade de Cowansville naquele lindo dia de verão. Eles antecipavam o dia cheio de ataques da Mídia e por tanto não teriam tempo pra receber-nos.

Seguimos mesmo assim para a casa de Hélène na esperança de possivelmente visitar uma Casa de Parto também em uma Municipalidade vizinha. Alí desfrutamos da linda vista à beira do lago, da Natureza sempre linda exuberante e do acolhimento e companhia calorosa de Hélène.

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Hélène havia conseguido em poucas horas um Plano B: uma visita à uma Casa de Parto em uma cidade próxima, Sherbrooke. Durante o almoço nova surpresa: ligação do Hospital Brome-Missisquoi-Perkins para avisar que finalmente poderiam receber-nos! Finalmente o artigo em questão contestava do fato de que o pai tendo perdido a mulher e o filho, não tinha mais direito à Licença Paternidade e não atacava o Hospital. Finalmente eles estavam tendo um dia mais tranquilo que previsto! Seguir os movimentos da vida: sem problemas para uma parteira e um obstetra humanizado!

O Pavilhão dos Nascimentos (Pavillon des Naissances) do Hospital Brome-Missisquoi-Perkins é um Centro Obstétrico situado dentro de um Hospital de Assistência Secundária ou Média Complexidade em Saúde totalmente público. Isso significa que o Hospital está equipado com um Centro Cirúrgico mas não tem Assistência Terciária ou de Alta Complexidade (UTIs por exemplo). No caso da necessidade de Serviços de Alta Complexidade há uma transferência para Hospitais Especializados de Nível Terciário em Montreal que se situa á mais ou menos uma hora e meia de estrada.

O Pavilhão dos Nascimentos tem 8 quartos PPP (pré-parto, parto e pós-parto) sendo que 1 deles tem uma cama de casal (na foto) os outros têm uma cama hospitalar que comporta entre outros barra de cócoras e se adapta para o parto com a retirada da parte inferior. Existem 2 outros quartos na entrada do Setor que pertencem a Pediatria do Hospital mas podem ser usados também como PPP em caso de necessidade.

O Hospital foi o primeiro no Canadá a ser Certificado Amigo dos Bebês em 1999.  Hoje eles também são os primeiros Credenciados, assim como o Hospital Sophia Feldman em Belo Horizonte, com Sítio de Demonstração como Hospital Amigo do Binômio Mãe-Bebê pela IMBCI (International Mother-Baby Childbirth Initiative/Iniciativa Internacional para o Nascimento Mãe-Bebê).

A equipe dirigida pela enfermeira Christiane Charest, que guiou pessoalmente a grande maioria da visita, nos recebeu de braços abertos. Equipe essa que é composta exclusivamente de médicos de família (clínicos gerais) e enfermeiras obstétricas e neonatais (enfermeiras formadas nas duas especialidades). Outros profissionais de outras especialidades podem ser chamados em caso de necessidade inclusive pediatras, obstetras e anestesistas. Esses dois últimos se encontram de plantão em loco dentro do Hospital mas em outros Setores em horário comercial e fora dele de plantão à distância. Eles recebem uma média de 75 nascimentos por mês ou 900 por ano, têm uma taxa de cesariana de  cerca de 24% (que aumentou nos últimos anos e que Christiane diz ser uma vergonha sobre a qual eles trabalham para melhorar!), 34% de pelidurais, 15% de induções (bem mais baixo que a média nacional) e 90% de aleitamento exclusivo na alta (o que para a Província e o país é enorme).

 

A Equipe trabalha em uma base multidisciplinar visando horizontalizar as relações e os conhecimentos tanto dos profissionais entre si quanto com as famílias usuárias. Cursos sobre o Modelo de Assistência são oferecidos à todos os profissionais membros da Equipe sem exceção e também às famílias usuárias do Serviço. O Modelo de Assistência por Consentimento Esclarecido e Informado é estritamente respeitado.  Usuárias com gestação de baixo e médio risco são atendidas tanto em pré-natal como no parto. Casos de alto risco são transferidos para Montreal.

Existem várias formas de viver e várias formas de parir. Christiane em uma apresentação Power Point em seu escritório ao final da visita nos mostrou com eloquência que apesar de ser favorável ao desenvolvimento dos Serviços de Parteiras na Província e no País realisticamente, mesmo se o atendimento das parteiras conseguir atingir a meta prometida de passar de 3% da população à 10%, ainda teremos 90% das usuárias no Québec parindo em Hospitais. Por isso ela vê um Modelo como o do Pavilhão dos Nascimentos do Hospital Brome-Missisquoi-Perkins como uma possibilidade pertinente e realista dentro de um Sistema altamente medicalizado e violento com uma tendência crescente das taxas de cesariana. A cada um sua opinião e seu trabalho! Há muito o que ser feito!

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Parir, ser mãe e ser mulher

 

 

A vida tem duas faces:
Positiva e negativa
O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo”

Cora Coralina

Vivemos em uma era de radicalizações. Vejo que cada vez mais através do Planeta as pessoas e os grupos tendem à se polarizar. Quem sabe isso não seja bem novo… Quem sabe o Ser Humano desde sempre tenha tido essa necessidade de simplificar, radicalizar para que possa sentir que compreende o sentido da vida e pertence de fato à algo. Talvez por isso os jovens sejam tão propensos ao radicalismo, pela necessidade básica humana de se identificar à algo, à alguém, em busca de sua própria identidade e sentido.

Hoje cheguei a conclusão que parir, ser mãe e ser mulher são três coisas bem diferentes! Elas podem ter pontos comuns e até se cruzar de vez em quando mas são bem distintas. Até hoje ainda precisamos ser mulheres para poder parir! Mas parir atualmente por via vaginal, como desenhou a Natureza, virou no Brasil uma raridade sobretudo na classe média alta. Todos sabemos que muitos hospitais particulares brasileiros tem taxas de partos cirúrgicos acima de 80%, alguns chegam muito perto de 100%. Então a busca por um parto vaginal, e mais, por um parto natural sem violências e intervenções desnecessárias, virou um ato quase heróico no cenário nacional!

Por isso as mulheres celebram muito, com razão, quando têm esse tipo de parto. Elas celebram e o Movimento pela Humanização do Parto divulga, também com razão, os benefícios de parir como a Natureza entende. Mas a cesárea, o parto cirúrgico, não é por si só algo de negativo. Negativo em saúde materno-infantil, segundo a OMS, é ter cesáreas de menos e cesáreas demais. Considerando que negativo é quando as taxas de mortalidade materno-infantil são mais altas que deveriam ser. O Brasil paradoxalmente (que surpresa!!) entra nas duas categorias! Temos cesáreas demais nos hospitais particulares e nas classes A e B e não temos cesáreas suficientes em algumas regiões afastadas e classes sociais mais baixas onde a Assistência necessária não chega ou chega mal. Nos dois casos não diminuímos as taxas de mortalidade por razões opostas: a falta e o excesso de cesáreas.

Então vivemos dizendo: não somos contra o parto cirúrgico bem indicado, uma cesariana bem indicada pode salvar até duas vidas. Inclusive uma cesárea com indicação pode e deve ser “Humanizada”.  Mas na prática, mulheres que fizeram “tudo direitinho” nessa busca heróica por um parto digno (concepção consciente, exercícios pré-natais, alimentação sã, cursos pré-natais, equipe humanizada, parto domiciliar, etc, etc) e que têm uma cesárea bem indicada (por vezes humanizada outras não) acabam se sentindo ostracizadas. Eu infelizmente não estou exagerando! Já ouvi mais de uma mulher, em mais de um contexto, em mais de um lugar relatar esse sentimento.

Na cabeça de muitas pessoas do “Movimento pela Humanização do Parto” existe, e é difundido consciente ou inconscientemente, um certo e errado, um preto e branco de realidades definitivas. Se uma mulher do “Movimento” fez todos os atos heroícos associados à tentar um parto natural “humanizado” (que aparenta ser a garantia da solução para todos os males da Humanidade) hoje no Brasil e mesmo assim acabou com uma cesariana com uma indicação não muito precisa (por exemplo parada de progresso) as pessoas tendem a pensar duas coisas: a mulher ou então a equipe fez algo de “errado”. Isso é fato!!! O “Tribunal do Parto Normal Humanizado”, fiel a sua forma de realidades definitivas, ouve mais ou menos e depois julga! E as mulheres sentem isso, não tem como não sentir. E nós parteiras também sentimos!

Outra realidade é que um parto que foi planejado para acontecer em casa, onde houve um investimento massivo de tempo, energia e dinheiro, onde criou-se um vínculo com a equipe e um sonho do “parto ideal,” e que termina em cesariana gera um processo muito profundo e complexo de luto. A mulher é claro que vai viver esse luto mais intensamente. Porém nós profissionais também vivemos um processo de luto. Nós também passamos por sentimentos intensos: será que eu fiz tudo o que podia, será que eu poderia/devia ter feito algo diferente, será que eu fiz algo de errado? E à isso adicionamos, durante e após as transferências, experiências por vezes profundamente antagônicas e agressivas com nossos colegas que não aprovam nossas escolhas de Assistência e não compreendem um Paradigma de Assistência diferente do deles. A mulher vai se perguntar e viver as mesmas coisas e também a muitas vezes mais doída pergunta: será que há algo de errado comigo? E como o processo de luto traz entre outros sentimentos raiva e tristeza, muitas vezes essa raiva é direcionada à equipe. E ao invés de aproveitar o processo para um crescimento e aprendizagem mútuos perdemos tempo martirizando-nos ou acusando-nos junta ou separadamente. Por que muitas vezes questões profundas e difíceis de lidar são acionadas dos dois lados.

A verdade é que estatisticamente e em um mundo com uma Assistência ideal uma parte minoritária ( 5-20%) dos nascimentos terminarão em cesarianas. Outra verdade é que estatisticamente, também nesse mundo do atendimento ideal, uma pequena porcentagem de partos terminarão em óbitos isso seja onde for (hospital, casa, centro cirúrgico, etc). Infelizmente hoje nem nos sistemas de atendimento mais ideias não conseguimos erradicar a morte no parto. Quem sabe um dia cheguemos lá, mas por enquanto podemos fazer somente o possível. E o possível inclui entre outros uma cesariana bem indicada mesmo se a indicação não era ainda muito explicita (ex: parada de progesso e exaustão materna). Se sabemos que isso tudo é normal e real por que não queremos falar disso? Onde está a dificuldade?

Face ao processo difícil vivido tanto por mim como pelas mulheres que atendi que acabaram com uma transferência e/ou uma cesariana, organizei algumas vezes grupos de apoio para que os sentimentos fossem exteriorizados e compartilhados. Vi como isso ajuda todo mundo no processo. Uma dessas mulheres, em seu processo pessoal de luto depois de uma cesárea decorrente de uma transferência de um parto domiciliar, primeiro se afastou de mim e de todos. Depois fez suas próprias pesquisas e trabalho pessoal. Ela encontrou pela internet e decidiu participar de um grupo chamado Homebirth Cesarean International. Depois de entender algumas coisas ela voltou, estudou para ser doula, participou de um encontro do grupo de apoio e criou o seu próprio grupo de apoio no Facebook.

O Homebirth Cesarean International (HBCI), que eu conheci graças á essa mulher, tem feito um bom trabalho em um assunto muito delicado. Elas publicaram entre outros dois livros: “Homebirth Cesarean: Stories and Support for Families and Healthcare Providers e “Healing from a Homebirth Cesarean. Uma das sugestões que elas fazem é que os profissionais que trabalham com parto domiciliar abordem o Plano B de transferência e também o que elas chamam de Plano C em caso de cesárea. Muitos profissionais se questionam sobre o ato de abordar o tema de uma possível cesárea no acompanhamento pré-natal. Será que não vamos minar a confiança dessa mulher que tão heroicamente se investe de corpo e alma na busca de um sonhado parto natural em condições tão adversas? Conversando com mulheres que tiveram uma cesárea após uma transferência de um parto domiciliar em um Fórum de discussão da HBCI a parteira americana Amanda Roe chegou a seguinte conclusão: “Eu conheço tantas mulheres naquele grupo que gostariam que sua parteira pudesse ter olhado diretamente em seus olhos e dito algo como: “Um nascimento por cesariana no seu caso não é o desfecho mais provável mas é um desfecho possível, e eu serei sua parteira e ficarei com você mesmo se eu não for a pessoa que receberá o seu bebê”.

Ouço muitas mulheres relatando o sentimento de se sentir “menos mulher” por não ter parido vaginalmente. Todo sentimento merece ser escutado. Em seguida o ideal é que possamos olha-lo de frente e explorar o que ele quer nos dizer. Por que entre a realidade da vida e a realidade do que sentimos pode haver um mundo inexplorado que vai nos ajudar a crescer e viver melhor. Pode parecer paradoxal mas uma das minhas professoras mais sensíveis as questões emocionais das mulheres que ela atende não é mãe e nunca pariu. Ela é uma mulher sensível, trabalhada, carinhosa e competente no que se dispõe a fazer. Pensem bem e olhem a sua volta: quantas mulheres que conhecemos não são mães? Será que elas são “menos mulheres” por isso? Quantas mães exemplares que conhecemos nunca pariram e talvez nem gestaram? Ser mãe, ser mulher e parir são três coisas distintas, são vias que em pleno século XXI temos o luxo de escolher ou não percorrer ou ainda com qual profundidade.

Vi vários bebês nascidos de cesariana intraparto que pegam o peito imediatamente com gana e mamam com facilidade depois disso também. Já vi vários bebês nascidos de partos domiciliares “perfeitos”, os “partaços” que o pessoal costuma contar por aí, que não querem mamar imediatamente e que em seguida têm um processo de amamentação complicado! Já vi o oposto também! Já vi mulheres que tiveram cesáreas e que se enamoram imediatamente de suas crias enquanto vi outras que tiveram parto domiciliar demorarem um pouco pra reconhecer e se acostumar com a dança interna e externa gerada pela presença daquele novo Ser em sua vida! E já vi o inverso! Ou seja: somos seres complexos! E mais: a maternidade como a gestação e o parto são danças à dois! Abracemos a  beleza da complexidade e a heterogeneidade da vida sem exceções!

“Porque toda a humanidade nasceu de uma mulher
Toda a humanidade veio de uma mulher
Porque toda a humanidade nasceu de uma mulher
Toda humanidade veio de uma mulher

Então me encare finja que já me conhece
Sou forte aparentemente mas valho como toda gente
Fique aqui tome alguma coisa converse pra se distrair
Vai ver que sou uma menina que é capaz de lhe fazer feliz

Quero te ver se você quiser
Quero ver você se você vier
Só vou te ver se você quiser
Só ver você se você vier”

Vanessa da Mata, mulher e mãe de três filhos sem ter parido

 

 

O Modelo de Assistência das Parteiras

Lá vou eu bater na mesma tecla! Mas bom, como me disseram esses dias: “pode bater na mesma tecla, eu quero entender”.  Eu acho que então vou continuar batendo nessa mesma tecla até um número suficiente de pessoas entenderem e passarem à ação! E é claro, eu estou sempre disposta para a ação além de bater na mesma tecla!

Esse post é baseado em uma apresentação Power Point que tenho sobre o Modelo de Assistência das Parteiras. Ela começou no começo dos anos 2000 quando eu era ativista junto ao lindo grupo Texans for Midwifery ajudando a promover o Modelo de Assistência em espanhol. O primeiro slide tem essa linda foto da parteira Merideth Klein que morava e atuava em Austin no Texas na época:

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Gosto muito dessa foto. O quadro no fundo (não se vê muito bem) tem pessoas de várias nacionalidades e etnias.  Merideth olha sua cliente bem nos olhos, elas estão sentadas confortavelmente em um sofá  conversando em uma postura “horizontal” a distância, física inclusive, entre elas é pouca. Se Merideth não tivesse papel e caneta à mão (ela escreve no prontuário da mulher) veríamos duas mulheres conversando. Essa foto captura pra mim a alma do Modelo de Assistência com o qual eu trabalho e que eu desejo que se multiplique e frutifique tanto no meu país como no mundo: éticaholismo, cuidado, horizontalidade e profissionalismo são alguns dos conceitos à ele associados.

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“E o rei do Egipto falou às parteiras das hebréias (das quais o nome de uma era Sifrá, e o nome da outra, Puá) e disse: Quando ajudardes no parto as hebréias e as virdes sobre os assentos, se for filho, matai-o; mas, se for filha, então, viva. As parteiras, porém, temeram a Deus e não fizeram como o rei do Egipto lhes dissera; antes, conservavam os meninos com vida. Então, o rei do Egipto chamou as parteiras e disse-lhes: Por que fizestes isto, que guardastes os meninos com vida? E as parteiras disseram a Faraó: É que as mulheres hebréias não são como as egípcias; porque são vivas {ou espertas} e já têm dado à luz os filhos antes que a parteira venha a elas. Portanto, Deus fez bem às parteiras. E o povo se aumentou e se fortaleceu muito. E aconteceu que, como as parteiras temeram a Deus, estabeleceu-lhes casas. Então, ordenou Faraó a todo o seu povo, dizendo: A todos os filhos que nascerem lançareis no rio, mas a todas as filhas guardareis com vida. –

Êxodo 1:15-22

Temos no Velho Testamento uma prova histórica escrita da atuação e do serviço da parteira que é sem dúvida uma das profissões mais antigas da Humanidade. O que acho interessante aqui é a “rebeldia”das parteiras hebréias Sifrá e Puá: elas desafiam, porém sem combater abertamente, a ordem do Comandande Supremo, o Faraó, por sua arbitrariedade e injustiça. Elas “temeram a Deus” ou seja elas responderam à uma Ordem por elas considerada superior aquela do Faraó detentor do poder e símbolo do status quo para proteger as crianças hebréias. Na Idade Média elas continuaram desafiando e o status quo e milhares de parteiras foram queimadas no fogo da Inquisição sob a acusação de bruxaria. Paradoxalmente, essa “rebeldia” ou questionamento do status quo, que aparece também no Velho Testamento, desafiava então do poder da Igreja. Mas vemos que essa capacidade de pensamento, decisão e ação autônoma em nome do bem estar das mulheres e suas famílias já vem sendo uma das caractéristica da profissão de parteira desde tempos imemoriais.

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O advento da Obstétrica como especialidade médica data de grosso modo 100, no máximo 200 anos, um tempo ínfimo no contexto da História da Humanidade. A Medicina dita Hipocrática ganhou rapidamente o Mundo Ocidental, sendo portanto hoje conhecida como “Medicina Ocidental”  ou ainda “Biomedicina”. Isso sobretudo durante o final do século XIX e no século XX  com evolução rápida advinda entre outros da teoria microbiana e a descoberta dos antibióticos. As mulheres não foram bem-vindas no começo da História da Medicina assim como em outras esferas sociais e profissionais. No Brasil a primeira mulher a formar-se em medicina o fez em 1887.

Na Europa e na Ásia a parteira foi integrada ao longo do tempo como profissional independente no Sistema de Saúde. Minha parteira Elisabeth Drèves contava como para ela era estranho que sua profissão fosse tão pouco conhecida e marginalizada no Canadá nos anos 90 enquanto em sua França natal, segundo ela, se ela estivesse em um ônibus ou metrô cheio e alguém da Comunidade a reconhecesse imediatamente lhe dariam um assento! Ou seja, em seu país e parte do Continente (Europa Ocidental) se trata se uma profissão reconhecida e respeitada. Porque, quando e como chegamos a esse ponto de se envergonhar, de estranhar a palavra e a profissão de parteira?

Não vou elaborar sobre esse tema! Até por que isso daria um bom post por si só… Vou ater-me a falar do que eu me propus no título!

► O modelo de Assistência da Parteira  baseia-se no princípio de que a gestação, parto e o nascimento são procesos normais da vida de uma mulher. O Modelo de Assistência da Partera inclui:

  • supervisionar o bem estar físico, psicológico, emocional e social da mãe durante o ciclo gravídico-puerperal (as visitas com parteira duram de 30 min à 2 hrs)
  • proprocionar à mãe educação, aconselhamento e cuidado prénatal individualizado, assistência direta continua durante a etapa prénatal, todo o trabalho de parto e apoio na etapa do pós-parto
  • reduzir as intervenções tecnológicas
  • identificar e trabalhar em conjunto dentro um sistema de refêrência e contra-refêrência com o modelo médico/hospitalar para aquelas mulheres que necessitem atenção obstétrica.

►A aplicação deste modelo de assistência centrado na mulher tem comprovadamente reduzido a incidência de feridas nos partos, traumas e nascimentos cirúrgicos.

* Baseado na definição do Modelo de Assistência da Parteira pelo Citizens for Midwifery (Cidadãos pelas Parteiras): http://cfmidwifery.org/mmoc/define.aspx

Ou seja o Modelo de Assistência da Parteira é um Modelo de Assistência Primária e Secundária em Saúde (Baixa e Média Complexidade) enquanto que o Modelo de Assistência da Obstetrícia, enquanto especialidade da Medicina e da Enfermagem, consiste um Modelo de Assistência Terciária ou de Alta Complexidade. São Modelos de Assistência norteados por princípios distintos porém complementares.

O Fundo de População das Nações Unidas editou em 2014 um Relatório sobre a condição das parteiras no mundo. Segundo esse último o mundo necessita urgentemente de 350 000 parteiras treinadas.

UNFPA Report

 

Fotos da Enfermeira Obstétrica Silvéria Santos, sua filha e seu neto e da Obstetriz da EACH-USP cortesia de Bia Fioretti do Mães da Pátria.
Fotos da Enfermeira Obstétrica Silvéria Santos, sua filha e seu neto e da Obstetriz da EACH-USP cortesia de Bia Fioretti do Mães da Pátria.

Ser parteira no Brasil hoje tem várias caras, vários estilos, vários endereços. Meu sonho é que unamos forças e deixemos o que nos divide de lado para buscar na essência da “rebeldia” histórica das nossas ancestrais, irmãs de profissão, a possibilidade de promover um Modelo de Assistência que tenha a capacidade de mudar e fazer avançar de fato a saúde materno-infantil do nosso país. “Rebeldia” essa que deve ser compreendida em sua essência em quanto capacidade de questionamento e de ação face á um sistema vigente arbitrário, abusivo ou injusto.  Essa proposta vai muito além do poder advindo do técnicismo e do reconhecimento institucional.

A antropóloga Robbie Davis-Floyd define o que ela chama de “parteira pós-moderna“:

“Aquela que tem uma atitude relativista em relação a biomedicina e outros sistema de conhecimento como por exemplo o “alternativo” e o indígena, se movimentando com fluidez entre eles para o beneficio das mulheres para as quais ela presta assistência.”

É esse o Modelo de Assistência com o qual eu me identifico, com o qual eu sonho e pelo qual eu luto.

O que estamos esperando?

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Entrevista pela Terra

Este post é uma homenagem. Uma singela homenagem à uma amiga querida. Minha amiga Catherine é uma das responsáveis pelo fato d’eu trilhar hoje o caminho no mundo do parto, nascimento e das parteiras. Ela foi a primeira pessoa a me falar ao mesmo tempo de assistência de parteiras e experiência de parto positiva. Foi ela também que me apresentou à Liga La Leche e à criação com apego. Minha singela e carinhosa homenagem a essa mulher que tem toda a minha admiração e carinho. A versão original da entrevista em francês está nesse post, como sempre a tradução livre é minha! Agradeço a generosidade de ter aceito me dar essa entrevista. Agradeço também a confiança, a clareza e a honestidade das respostas. Catherine, você é e sempre será para mim um exemplo de mãe, mulher e ser humano a ser admirado.

Sem mais delongas aqui vai:

-Você poderia se apresentar?

Eu me chamo Catherine. Sou mãe de duas meninas: Nadia que tem 19 anos e Valentine que tem 7 anos. Eu moro em Montreal com meu companheiro Filipe e com a Valentine; Nadia já saiu de casa. Eu trabalho como psicóloga junto a adultos e adolescents. Eu me especializo em terapia de casal e transtornos alimentares.

Você poderia nos contar de maneira breve os seus partos?

Meus partos foram separados por um período de 12 anos. Eu pude vivênciar o primeiro como uma jovem mulher, aos 20 anos, e o segundo como uma mulher mais madura aos 32 anos. Minhas filhas não têm o mesmo pai. Do ponto de vista fisiológico, meus dois partos foram similares (os dois foram rápidos e intensos, o primeiro durou por volta 6 horas e o segundo por volta de 7 horas). Não houveram complicações, eu pari as duas vezes na mesma Casa de Parto mas não com a mesma parteira. Porém a minha relação com as duas parteiras foi bem diferente: da primeira vez eu gostava bastante da minha parteira e tinha confiança nela emocionalmente. Da segunda vez eu mal a conhecia (ela estava substituindo uma outra parteira) e não havia esse vínculo de qualidade. Eu tinha confiança nas competências dela mas mesmo assim isso não me deixa o mesmo tipo de lembrança.

Jaqueline

-O que te levou a escolher os serviços de parteiras para os seus partos?

Eu havia lido um livro sobre o parto natural que me inspirou, então eu sabia que esse tipo de serviço existia e eu tinha ouvido falar das parteiras. Porém, eu fui mesmo assim a uma primeira consulta com uma obstétra, eu pensava que seria provavelmente bom, mas essa mulher me pareceu seca e insensível: a primeira consulta durou no máximo 10 minuos e acho que ela nem mesmo sorriu. Em seguida eu procurei uma parteira que passou muito mais tempo comigo e foi mais atenciosa, ela parecia muito mais interessada no que eu vivia. Não havia nenhuma comparação, na verdade. O contraste era enorme. Na época, em 1995, as Casas de Parto no Quebec eram um Projeto- Piloto, era novidade. Eu me lembro que tinha um ambiente bem agradável. Nos sentíamos imediatemente acolhidas, á vontade, em casa. Depois da primeira consulta com a parteira a escolha era clara: eu nunca mais me questionei.

-Quais foram as diferenças entre o primeiro e o segundo acompanhamentos? Você preferiu um dos dois? Se sim porque?

Sim houve mais química com as parteiras na primeira vez. A primeira parteira estava de férias durante o meu parto, mas eu conhecia bem a que estava presente no meu parto por que eu a tinha visto várias vezes e eu gostava bastante dela. Essa parteira tem até hoje um lugar especial no meu coração. Ela não pôde fazer o acompanhamento do meu segundo bebê, o que me deixou bem decepcionada. Meu segundo acompanhmento foi feito por uma parteira que se chamava Jaqueline. Eu não gostava nem um pouco da substituta que trabalhava em parceria com ela, que eu conheci em uma consulta apenas. Então foi decidido que se Jaqueline não pudesse estar presente no parto (o que aconteceu), uma outra equipe de duas parteiras me assistiria. Eu as vi uma vez cada uma antes do parto. A parteira que finalmente esteve presente no meu parto era de modo geral boa mas não existia vínculo entre nós. Eu me lembro que ela fez um comentário sobre as posições que eu escolhia dizendo que elas eram menos eficientes e isso me magoou. Pelo menos ela não atrapalhou o processo. Ela foi bem discreta e me deixou sozinha com meu companheiro nas primeiras horas. Ela esteve mais presente no final. Era como se ela fizesse o estrito mínimo. Eu não a sentia envolvida emocionalmente. Ela estava “fazendo seu trabalho”, só isso. Ela não foi uma fonte de apoio emocional para mim.

Na época do meu segundo parto em 2007, as Casas de Parto já eram mais conhecidas e havia mais demanda. Muitas mulheres não conseguiam um lugar. Tinha muito mais gente nos cursos pré-natais, eu me lembro que tive dificuldade de encontrar uma cadeira para sentar. Eu fui apenas uma vez e não voltei por que estava tudo muito caótico. As parteiras também pareciam organizadas de uma forma diferente. No primeiro parto em 1995 eu simplesmente precisava ligar para a minha parteira quando o parto começasse. No segundo, em 2007, haviam “plantões”, então eu não sabia ao certo qual parteira estaria presente. Eu devia ligar para um serviço telefônico de resposta automática que me diria qual parteira estaria de plantão naquele momento. Então foi uma experiência muito menos forte do ponto de vista humano, muito menos personalizada. Definitivamente não foi a mesma coisa.

-Você recomendaria a assistência das parteiras do Quebec às suas amigas? Porque?

Sim mas com um bemol. Eu não sei como estão os serviços em Casa de Parto em 2015, meu último parto ocorreu há 7 anos e eu imagino que possivelmente possam haver tido mudanças desde então. Os serviços são com certeza mais acolhedores e personalizados que no Hospital onde na maioria das vezes as mulheres nunca encontraram anteriormente o pessoal que vai lhes prestar assistência. No Hospital “caímos” em uma pessoa gentil ou não, é realmente uma questão de sorte, pelo que eu ouvi dizer. Também tem o fato da filosofia diferenciada das parteiras que encaram o parto como um processo natural, elas são menos intervencionistas, o que é uma coisa muito boa. Mas eu não poderia garantir a minhas amigas que elas teriam um vínculo com sua parteira e isso é realmente lastimável. Eu imagino que por vezes o vínculo esteja presente e por vezes não, mas isso não me parece ser mais uma prioridade para as parteiras. Enfim, essa foi a impressão que a minha segunda experiência me deixou.

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-Porque, na sua opinião, a assistência das parteiras no Quebec progrediu tão pouco nos últimos 20 anos desde a introdução desse serviço no Sistema de Saúde Público (atualmente a porcentagem de usuárias desse serviço ainda não atingiu 10% da população sendo que sabemos que a demanda se situaria á pelo menos 25%)?

Eu não acompanhei muito bem a situação depois do meu segundo parto, talvez por que minha experiência tenha me decepcionado e eu tenha me desenvestido. Tem certamente uma questão de formação, eu creio que muito poucas parteiras são formadas e isso explica em parte o problema. Eu estou bem convencida que os médicos também colocam entravas às parteiras, pois eles não querem perder a clientela e seus poderes especiais.

-O que é a Liga La Leche para aqueles que não a conhecem?

A Liga La Leche é um Organismo Internacional de apoio ao aleitamento materno. As monitoras são voluntárias e amamentaram seus bebês. Eu fui monitora voluntária durante 13 anos de 1996 à 2009. O que é especial com a LLL é que ela faz a promoção de um tipo de maternagem (que poderíamos chamar de “attachment parenting”, “criação com apego”) e não somente conselhos técnicos sobre amamentação. Ela encoraja as mães (e pais) à estarem a escuta de seu bebê, à responderem ás suas necessidades, à não ter medo de mima-los em pega-los no colo e em amamentando-os várias vezes seguidas e/ou longamente. Essa mensagem me ajudou muito como jovem mãe pois meu bebê era sensível e exigente, ela queria estar sempre no meu colo e ser amamentada com frequência também. Eu ouvia muito que eu iria mima-la, então ouvir da LLL que o que eu fazia era correto foi verdadeiramente importante para mim. Isso de deu confiança nas minhas capacidades de mãe. E isso também me permitiu conhecer outras mães, pois aos 20 anos, a maioria das minha amigas ainda não tinha filhos. O isolamento é um problema sério que vivem muitas novas mães. Nossa sociedade é mal feita nesse sentido.

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-O que você mais gostou durante os anos que você trabalhou junto da LLL?

Um pouco a mesma coisa que eu gostou agora como psicóloga: eu gosto de ter o sentimento de ajudar e eu gosto de ter a oportunidade de encontrar e acompanhar as pessoas durante um período importante e vulnerável de suas vidas. Eu gostava de ver os bebês crescerem quando as mães vinham com eles nas reuniões mês após mês. Algumas mães eu não esquecerei nunca. Um dos momentos mais bonitos foi durante uma das reuniões da LLL: uma mãe que eu já conhecia, pois ela tinha vindo ás reuniões quando estava gestante, mas ela tinha acabado de ter seu bebê que eu então via pela primeira vez. A primeira coisa que ela fez chegando, sem nenhuma hesitação, antes mesmo de me dizer uma palavra, foi de colocar o seu bebê no meu colo. Isso me tocou tanto, uma prova de confiança tão bonita. Eu ainda fico emocionada quando lembro.

Enquanto ser humano, mãe, mulher e profissional o que pra você foi a lição mais importante da maternidade?

A maternidade me trouxe e me traz ainda minhas mais belas alegrias e meus maiores sofrimentos. Eu digo sofrimentos por que minha filha mais velha, que hoje tem 19 anos, se recusa a me ver e falar comigo fazem agora quase dois anos. Eu acredito que ela tenha sido vítima de alienação parental, que é um fenomeno que eu não conhecia antes de sua partida em 2012. Mesmo se eu lhe dei tudo que eu pude na vida e que eu a amei e a amo ainda de todo meu coração, é possível que ela não volte nunca, talvez eu a tenha perdido. Eu não acreditava que isso pudesse nos acontecer, nós tinhamos uma relação tão bonita. Eu penso em amigas minhas que perderam seus filhos: uma amiga quando seu bebê tinha 5 dias. Uma amiga que perdeu sua filha de 1 ano e dois meses por causa da síndrome de morte súbita, uma outra amiga que perdeu sua filha de 13 anos para a leucemia. Minha avó que perdeu 5 filhos na pequena infância. Minha outra avó que perdeu um bebê no parto. A maternidade tem esse potencial terrível de nos fazer viver os maiores sofrimentos. No começo da minha vida de mamãe, eu acreditava que algumas coisas pudessem me “proteger” de certa forma. Um belo parto natural, amamentar minha filha, responder ás suas necessidades, tudo isso me parecia uma espécie de garantia. Com o tempo e a experiência eu me dei conta que não há garantia, nem mesmo algo perto disso. Eu posso dar o melhor de mim, dar tudo que tenho, dar todo o meu amor e isso não garante nada. Isso dá medo! É também uma grande lição de humildade. Bem-vinda a raça humana: ninguém está protegido das grandes tristezas. Agora eu julgo menos, eu entendo melhor o sofrimento dos outros. Como eu compreendi que não há garantias na vida, o fato de amar me parece ainda mais belo: ver que as pessoas amam apesar de toda a incerteza. Que seja amar seu filho ou uma outra pessoa, é sempre um risco enorme (eu vejo isso também em terapia de casal!) Ao mesmo tempo, a maternidade, mais do que qualquer outra coisa, é o que dá um sentido à minha vida, e eu sou tão feliz e tão sortuda de ter podido vivencia-la. Existem muitas mulheres que gostariam de ser mãe e não podem. Não podemos esquecer a sorte que temos de viver esse tão grande amor.

Love

 

 

 

 

 

 

Entrevue par Terra

Voici mon premier post en français! Il est venu afin de célébrer et honorer mon amie Catherine. C’est Catherine la première personne de mon entourage qui m’a parlé à la fois de soins sage-femmes et d’une expérience positive d’accouchement. Je lui dois donc une partie de la responsabilité du fait que je me sois embarquée dans les aventures du monde de la naissance et des sage-femmes. C’est aussi Catherine qui m’a fait connaître la Ligue La Leche et les principes du “attachement parenting”. Pour cela j’ai décidé de lui rendre hommage avec cette entrevue. Je la remercie d’avoir non seulement accepté de me donner cette entrevue mais aussi, et surtout, de son ouverture, son honnêteté et sa confiance. Tu es et resteras toujours pour moi, Catherine, un exemple de mère, femme et être humain à admirer.

Voici donc sans délais cette entrevue:

-Peux-tu te présenter dans tes propres mots?

Je m’appelle Catherine. Je suis maman de deux filles: Nadia qui a 19 ans et Valentine qui a 7 ans. Je vis à Montréal avec mon conjoint Filipe et avec Valentine; Nadia a déjà quitté la maison. Je travaille comme psychologue auprès d’adultes et d’adolescents. Je me spécialise en thérapie de couple et en troubles alimentaires.

-Pourrais-tu raconter brièvement tes deux accouchements?

Mes deux accouchements ont été séparés par une période de 12 ans. J’en ai donc vécu un comme toute jeune femme, à 20 ans, et l’autre comme femme plus mature à 32 ans. Mes deux filles n’ont pas le même père. Au point de vue physiologique, mes deux accouchements ont été semblables (tous les deux ont été rapides et intenses, le premier a duré environ 6 heures et le deuxième environ 7 heures). Il n’y a pas eu de complications, et j’ai accouché les deux fois à la même maison de naissance, mais pas avec la même sage-femme. Par contre, ma relation avec les deux sages-femmes a été très différente: la première fois j’aimais beaucoup ma sage-femme et je lui faisais confiance émotionnellement. La deuxième fois, je la connaissais à peine (elle remplaçait une autre sage-femme) et il n’y avait pas ce lien de qualité. J’avais quand même confiance en ses compétences, mais ça ne laisse pas le même souvenir.

Jaqueline

-Qu’est-ce que t’a amené à choisir des sage-femmes pour tes accouchements?

J’avais lu un livre qui parlait de l’accouchement naturel et qui m’avait inspirée, donc je savais que ça existait, et j’avais entendu parler des sages-femmes. Par contre, j’étais tout de même allée à un premier rendez-vous avec une obstétricienne, me disant que ce serait probablement correct, mais cette femme m’a semblé sèche et insensible: le premier rendez-vous a duré à peine 10 minutes et je crois qu’elle ne m’a même pas souri. J’ai par la suite fait appel à une sage-femme qui m’a donné beaucoup plus de temps et d’attention, et qui semblait beaucoup plus intéressée à ce que je vivais. Il n’y avait aucune comparaison, en fait. Le contraste était énorme. À l’époque, en 1995, les maisons de naissance au Québec étaient un projet-pilote, c’était tout nouveau. Je me souviens qu’il y avait une très belle ambiance. On se sentait tout de suite accueillie, à l’aise, chez soi. Après le premier rendez-vous avec la sage-femme, le choix était clair: je ne me suis plus jamais posé la question.

-Quelles ont été les différences entre le premier et le deuxième suivis? En as-tu préféré un des deux? Si oui porquoi?

Oui, ça a beaucoup mieux cliqué avec les sages-femmes la première fois. La première sage-femme était en vacances lors de mon accouchement, mais je connaissais bien celle qui était présente à l’accouchement car je l’avais déjà vue plusieurs fois et je l’aimais beaucoup. Elle a encore une place spéciale dans mon coeur, même aujourd’hui. Elle n’a pas pu me suivre pour mon deuxième bébé, ce qui m’a beaucoup déçue. Mon deuxième suivi a été fait principalement par une sage-femme qui s’appelait Jacqueline. Je n’aimais pas du tout sa remplaçante, que j’ai rencontré une fois. Il a donc été décidé que si Jacqueline ne pouvait pas être présente à l’accouchement (ce qui a été le cas), une autre équipe de deux sages-femmes s’occuperait de moi. Je les ai rencontrées une fois chacune avant l’accouchement. Celle qui était finalement présente à l’accouchement, était généralement correcte, mais il n’y avait pas de lien entre nous. Je me souviens qu’elle m’a fait un commentaire comme quoi je choisissais les positions les moins efficaces, ce qui m’avait blessée. Au moins, elle n’a pas entravé le processus. Elle était très discrète et me laissait seule avec mon conjoint pendant les premières heures. Elle a été plus présente vers la fin. C’est comme si elle avait fait le strict minimum. Je ne la sentais pas impliquée émotionnellement. Elle “faisait sa job”, c’est tout. Elle n’était donc pas un bon soutien émotionnel pour moi.

À l’époque de mon deuxième accouchement, en 2007, les maisons de naissance étaient plus connues et plus en demande. Beaucoup de femmes n’arrivaient pas à avoir une place. Il y avait beaucoup plus de monde aux cours prénataux. Je me souviens que j’ai eu du mal à trouver une chaise pour m’asseoir. Je suis allée une fois seulement et je n’y suis pas retournée car c’était trop chaotique. Les sages-femmes semblaient aussi s’être organisées différemment. Pour le premier accouchement, en 1995, je devais appeler ma sage-femme, tout simplement, quand l’accouchement se déclencherait. Pour le deuxième, en 2007, il y avait des “tours de garde”, donc je ne savais pas quelle sage-femme serait présente. Je devais appeler à un certain numéro, et là un répondeur me dirait qui était de garde à ce moment-là. C’était donc beaucoup moins fort sur le plan humain, beaucoup moins personnalisé. Pas la même chose du tout.

-Reccomanderais-tu l’assistance des sage-femmes au Québec à tes amies? Pourquoi?

Oui, mais avec un bémol. Je ne sais pas comment sont les services en maison de naissance en 2015, mon dernier accouchement a eu lieu il y a 7 ans et j’imagine que ça a pu changer depuis. Les services sont certainement plus chaleureux et personnalisés qu’à l’hôpital, où souvent les femmes n’ont jamais rencontré le personnel avant l’accouchement. À l’hôpital, on “tombe” sur des gens gentils ou pas, c’est vraiment une question de hasard, d’après ce que j’ai entendu. Il y a aussi la philosophie des sages-femmes comme quoi l’accouchement est un processus naturel, donc elles sont moins interventionnistes, ce qui est une très bonne chose. Mais je ne pourrais pas garantir à mes amies qu’elles auraient un lien avec leur sage-femme, et ça c’est vraiment dommage. J’imagine que le lien est là parfois, et parfois non; ça ne semble plus être une priorité pour les sages-femmes. En tout cas, c’est l’impression que ma deuxième expérience m’a laissée.

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-Pourquoi selon toi l’assistance des sage-femmes au Québec a si peu progressé en 20 quelques années depuis l’introduction de ce service dans le Système de Santé (aujourd’hui encore le pourcentage de gens qui ont accès à ce type de service n’a toujours pas atteint 10% de la population et on sait que la demande se situerait au moins à 25%)?

Je n’ai pas très bien suivi le dossier depuis mon deuxième accouchement, peut-être parce que mon expérience m’avait déçue et je m’étais désinvestie. Il y a certainement une question de formation, je crois que trop peu de sages-femmes sont formées, et ça explique le problème en partie. Je suis pas mal convaincue que les médecins mettent aussi des bâtons dans les roues aux sages-femmes, car ils ne veulent pas perdre leur clientèle et leurs pouvoirs spéciaux.

-Qu’est-ce que c’est que La Ligue La Leche pour ceux qui ne la connaissent pas?

La Ligue La Leche est  un organisme international d’entraide à l’allaitement maternel. Les monitrices sont bénévoles et ont allaité leurs enfants. J’ai été monitrice bénévole pendant 13 ans, soit de 1996 à 2009. Ce qui est spécial avec la LLL, c’est qu’elle fait la promotion d’un type de maternage (ce qu’on pourrait appeler “attachment parenting”) et ne donne pas que des conseils techniques sur l’allaitement. Elle encourage les mères (et les pères) à être à l’écoute de leur bébé, à répondre à leurs besoins, à ne pas avoir peur de les gâter en les prenant dans les bras et en les allaitant souvent et/ou longtemps! Ce message m’a fait beaucoup de bien comme jeune maman car ma fille Nadia était un bébé sensible et exigeant, qui voulait constamment être dans les bras et être allaitée très souvent aussi. Je me faisais souvent dire que j’allais la gâter, alors d’entendre par la LLL que ce que je faisais était bon était vraiment important pour moi. Ça m’a donné confiance en moi comme maman. Ça m’a aussi permis de rencontrer d’autres mamans, car à 20 ans, la plupart de mes amies n’avaient pas encore d’enfants. L’isolement est un problème sérieux que vivent beaucoup de nouvelles mères. Notre société est mal faite sur ce point.

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-Qu’est-ce que tu as aimé le plus durant les années que tu as travaillées auprès de la LLL?

Un peu la même chose que ce que j’aime maintenant comme psychologue: j’aime avoir le sentiment d’aider, et j’aime avoir la chance de rencontrer et d’accompagner des gens dans une période importante et vulnérable de leur vie. J’aimais voir les bébés grandir, quand leur mère venaient avec eux aux réunions mois après mois. Il y a certaines mamans que je n’oublierai jamais. Un des plus beaux moments était lors d’une réunion de la LLL: une maman est arrivée, que je connaissais déjà car elle était venue aux réunions quand elle était enceinte, mais là elle venait d’avoir son bébé, donc je le voyais pour la première fois. La première chose qu’elle a faite en arrivant, sans aucune hésitation, avant même de me dire un mot, a été de me mettre son bébé dans les bras! J’ai trouvé ça tellement touchant, une si belle preuve de confiance. Ça me fait encore chaud au coeur d’y penser.

-Comme  être humain, mère, femme et professionnelle qu’est-ce que pour toi a été la leçon la plus importante de la maternité?

La maternité m’a apporté et m’apporte encore mes plus belles joies et mes plus grandes souffrances. Je dis grandes souffrances car ma fille Nadia, qui a maintenant 19 ans, refuse de me voir et de me parler depuis presque deux ans. Je crois qu’elle est victime d’aliénation parentale, qui est un phénomène que je ne connaissais pas avant son départ en 2012. Même si je lui ai donné tout ce que j’ai pu dans la vie et que je l’ai aimée et l’aime encore ce tout mon coeur, il se peut qu’elle ne me revienne jamais, je l’ai peut-être perdue. Je ne pensais pas que ça pourrait nous arriver, nous avions une si belle relation.  Je pense à des amies à moi qui ont perdu leur enfant: une amie alors que son bébé avait 5 jours. Une amie qui a perdu sa fille de 13 mois à cause du SMSN, une amie qui a perdu sa fille de 13 ans de leucémie. Ma grand-mère qui a perdu 5 enfants en bas âge. Mon autre grand-mère qui a perdu son premier bébé à la naissance. La maternité a ce potentiel terrible de nous faire vivre les plus grandes souffrances. Au début de ma vie de maman, je croyais que certaines choses pouvaient me “protéger”, en quelque sorte. Un bel accouchement naturel, allaiter mon enfant, répondre à ses besoins, tout ça me paraissait comme une sorte de garantie. Avec le temps et l’expérience j’ai réalisé qu’il n’y a pas de garantie, pas même proche. Je peux donner le meilleur de moi-même, donner tout ce que j’ai, tout mon amour, et ça ne garantit rien. Ça fait peur! C’est aussi une grande leçon d’humilité. Bienvenue dans la race humaine: personne n’est protégé des grands malheurs! Maintenant je juge moins, je comprends mieux la souffrance des autres. Puisque j’ai compris qu’il n’y avait pas de garantie dans la vie, le fait d’aimer me paraît encore plus beau: voir des gens qui aiment malgré toute l’incertitude. Que ce soit aimer leur enfant ou aimer une autre personne, c’est toujours un risque énorme (je le vois aussi en thérapie de couple!). En même temps, la maternité, plus que toute autre chose, est ce qui donne un sens à ma vie, et je suis tellement contente et tellement chanceuse d’avoir pu la vivre. Il y a plein de femmes qui voudraient être maman et qui ne peuvent pas. Il ne faut jamais oublier la chance qu’on a, de vivre ce si grand amour.

Love

 

 

 

Mudar Paradigmas

Eu adoro ler! Adoro um bom livro. Estou conseguindo nesse momento da minha vida ler bastante e sobre temas variados. Graças ao maravilhoso Sistema de Bibliotecas Públicas do Québec! Que benção! Como isso é bom, um sistema de bibliotecas públicas é tudo pra quem gosta de pensar e/ou ler! Junto com a Internet então, fechou!!

Estou me deliciando com o livro “The Power of Women” da parteira norte americana cherokee Sister Morning Star da qual eu já falei nesse post anterior (esse eu comprei na Conferência da Midwifery Today e vai para a minha biblioteca de empréstimos, na minha salinha de atendimento querida em Brasília, aguardem!). Estou sorvendo as palavras de Sister ou Estrella, dependendo de onde ela esteja, como quem sorve uma boa xícara de chá (que eu adoro!) quentinho! Aos poucos me deliciando com o que ela chama de “medicina da palavra”. Aliás eu quero corrigir as palavras da Benção Cherokee que ela ensina! Eu escrevi, no post em questão, de lembrança apenas mas no livro está escrito como ela nos ensinou: “May you live long enough to know why you were born”, “Que você viva o suficiente para saber porquê nasceu”. Essa benção é feita sob a luz do sol ou da lua dependendo do momento que a criança nasceu.

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Algumas palavras do livro que me tocam: “The psycho-spiritual-emotional-cultural aspects of a woman far outweight her physical nature; they actually create it.”  “Os aspectos psico-espiritual-emocional-cultural de uma mulher de longe ultrapassam sua natureza física; na verdade eles a criam.” p. 8  “Sometimes babies design a mother’s birth.” “Por vezes bebês desenham o parto de uma mãe.” p. 14

Agora vamos mudar de livro! O livro “The Structure of Scientific Revolutions”  “A Estrutura das Revoluções Científicas” é um Clássico no mundo acadêmico! Clássico assim mesmo com C maiúsculo! Meu marido acadêmico em Ciências Políticas quando viu o livro na minha mesa de cabeceira esclamou: “Você está lendo Kunh?!” Sim, também estou lendo e me deliciando com Kunh, sorvendo a medicina das palavras dele! Esse livro dá pra achar em PDf por aí, viva a Internet!!

Pra quem ainda não sabe, Thomas Kunh é o pai da noção de Paradigma Científico e Mudança de Paradigma. Ele escreveu sobre isso em 1962 e o trabalho ainda é A referência nesse tema. Um pouco das palavras de Kunh: “Paradigms: Universally recognized scientific achievements that for a time provide model problems and solutions for a community of practitioners” p. X. Tenho em mãos uma versão em inglês do livro, existe uma tradução em português, porém vou fazer minha tradução livre por aqui, perdoem-me! “Paradigmas: conquistas científicas universalmente reconhecidas que por um tempo provêm problemas modelos e soluções para uma comunidade de praticantes.”; ” (…) the more certain they [the historians of science] feel that those once current views of nature were, as a whole, neither less scietific nor more the product of human idiosyncrasy than those current today. If these out of date beliefs are to be called myth, than myths can be produced by the same sorts of methods and held for the same sort of reasons that now lead to scientific knowledge. If on the other hand they are to be called science, then science has included bodies of belief quite incompatible with the ones we hold today. (…) Out-of-date theories are not in principle unscientific because they have been discarded.” p.2. “(…) quanto mais certeza eles [historiadores científicos] têm de que aquelas visões da natureza correntes em uma certa época foram, como um todo, nem menos científicas nem mais o produto da idiosincrasia humana do que aquelas correntes hoje. Se essas crenças depassadas devem ser chamadas de mito, então mitos podem ser produzidos pelos mesmos tipos de métodos e retidos pelos mesmos tipos de razões que hoje levam ao conhecimento científico. Se por um outro lado elas devem ser chamadas de ciência, então a ciência já incluiu conjuntos de crenças um tanto incompatíveis com as que temos hoje. (…) Teorias defasadas não são em princípio não científicas  por que foram descartadas.”

No começo do mês de março fiz um seminário de um dia com a semiologista Stéphanie St-Amant aqui em Montreal. Foi mais um reencontro. Stéphanie e eu fomos colegas no Grupo MAMAN na mesma época, aquela do processo de legalisação das Casas-de-Parto de da profissão de parteira no Québec na segunda metade dos anos 90. Estamos nessa há um tempinho! O seminário se intitulou: “História crítica das práticas obstétricais e sua rationale”. Também gosto de ir á lugares, formações e de encontrar ou reencontrar pessoas que gostam de refletir. Não me interessa se essas pessoas venham da mesma especialidade, formação ou classe social que eu. Aprecio boas reflexões mesmo não necessariamente concordando com elas contanto que exista respeito e apreciação mútua. Trocar sempre soma!

Stéphanie colocou muitas coisas. Mas passou um bom tempo sobre a noção e a concepção da obstetrícia de datação da gestação. Ao longo da história chegando até hoje. Porque datação específicamente? Por que hoje no Québec (do qual ela fala mais especificamente) e no mundo existe uma tendência crescente nas induções de parto (farmacológicas ou não).

Recentemente na Mídia e nas Redes Sociais têm se falado muito sobre a segunda gestação e parto por vir  da Duquesa de Cambridge. E circulou nas Redes Sociais esse artigo sobre a questão de pós-datas e indução no caso da célebre Duquesa. E aí os ativistas do parto humanizado compartilham dizendo: olha aí, podemos esperar e pós-datismo não é indicação de cesárea! E os médicos (não necessariamente os cesáristas) compartilham dizendo: olha aí, mas se a gestação virar de risco vai precisar das intervenções X, Y Z e estamos aqui pra isso! E no mundo atual, não só no Brasil, a segunda visão está ganhando! E as induções aumentando e as cesárias também! Mas será que as duas visões não podem trabalhar juntas?

Por um outro lado têm gente muito otimista! Gente que está aí na luta pela “Humanização” como novo Paradigma de Assistência ao nascimento há décadas (20, 30 anos) que diz que as coisas no Brasil mudaram e muito! Veja essa entrevista da Mater TV com a Enfermeira Obstétrica baiana Mary Galvão por exemplo. E mesmo assim os índices globais de cesárea continuam a subir no Brasil e no resto do mundo. Enquanto isso experiências específicas em diversos lugares do mundo, inclusive no Brasil, mostram que é  de fato possível ter os famosos índices de 15% de cesárea sugeridos pela OMS de maneira segura utilizando adequadamente a tecnologia de ponta do século XXI , tecnologias antigas, milenares e recursos humanos treinados (formalmente ou não) para atuar em diversos escalões da Assistência (primária, secundária e terceária).

Do que se trata então? Como essa “Mudança de Paradigma” pode se fazer de maneira efetiva sem deixar ninguém de fora?  Ainda continuo refletindo, lendo Sister Morning Star e Thomas Kuhn, no momento! Ainda me questiono sobre que Paradigma Novo é esse que queremos e até onde a “Medicina Baseada em Evidências” é tão científica e tão maravilhosa quanto pretendemos…

Independente de concordar ou não ideológica ou filosóficamente com alguém, posso apreciar uma vontade genuína de contribuir para o avanço do Ser Humano nesse planeta. E por isso mesmo discordando de muita gente do “Movimento pela Humanização do Nascimento” (que está longe de ser um conjunto homogêneo de pesoas) continuo dialogando e trabalhando em parceria, de perto e de longe com essas pessoas. Muitas vezes tenho a impressão de que os profissionais médicos (médicos, enfermeiras, etc)  têm uma aversão viceral, quase que irracional a nós parteiras! Sobretudo á aquelas sem formação formal. E isso escapa a minha compreensão! Dois, ou mais, Modelos de Assistência distintos podem viver em paz, podem muito bem colaborar trabalhando juntos pelo bem comum. Não precisamos todos pensarmos igualzinho, sermos iguaizinhos! Isso é possível basta vontade e humildade suficientes de todos os lados.

Cito aqui para terminar um outro pensador, não pelo seu pedigree que é enorme e incontestável, nem por suas orientações políticas, que são sempre por natureza questionáveis, mas por traços que eu admiro em alguém; a capacidade de pensar e a coragem (que vem de cor, coração, lembram?) de dizer o que precisa ser dito: “Em um longo discurso sobre problemas enfrentados pelo Brasil, o ministro [Roberto Mangabeira Unger] criticou o modelo atual de ensino. Ele disse que um novo projeito nacional tem de ser produtivista e nacionalizador e vir acompanhado de uma revolução na educação pública. “Nosso ensino público é uma imitação do ensino francês do século 19, baseado em decoreba. Nosso método de ensino é uma camisa de força dogmática. É hora de tirar essa camisa de força”, afirmou.”

Pensemos e ajamos juntos e juntas, com sensatez e coragem, tiremos nossas camisas de força pelo bem de todas e todos e a felicidade geral!

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O Amor e o Medo

Para quem está começando o caminho de parteira ou mesmo aquelas que já o trilham a muito tempo, a revista Midwifery Today é um recurso sempre presente. Lá no comecinho do meu percurso como aspirante e estudante parteira no começo dos anos 2000 fui assinante da revista. Muito da informação e dos recursos que elas oferecem na publicação e na Editora me inspiraram e ajudaram na época. O interesse na questão internacional e na diversidade de práticas tanto étnica como cultural da Midwifery Today, também sempre foi uma coisa que me fascinou e ressoa comigo, pois tenho por isso uma paixão e a bagagem “oficial”, lá traz em 1999, de um Certificado em antropologia. Por essas e outras razões sempre tive vontade de participar de uma das Conferências que elas organizam já há muitos anos. As Conferências da Midwifery Today são famosas e em geral acontecem duas vezes por ano uma nos EUA e uma em um outro país.

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Em 2005 tive o imenso prazer e a grandissíssma honra de fazer um estágio com a parteira tradicional mexicana Angelina Martinez Miranda em Temixco cidadezinha ao sul da cidade do México onde Angelina morava e tinha sua “Casita,” uma pequena casa de parto ao lado da sua casa na época. Eu conheci algumas parteiras mexicanas no Texas e  uma jovem parteira de Austin, a querida Natalie Lake, tinha passado um tempo com Angelina e falava muito bem dela. Eu tinha, quando estudante, muita vontade de passar um tempo com uma parteira tradiconal mesmo se isso não contaria oficialmente para a minha formação com a Associação de Parteiras do Texas e que muitas de minhas preceptoras me desencorajaram de fazê-lo. Então em junho 2005 houveram uma confluência de fatores e fomos!

Combinei tudo com Angelina, temos amigos na cidade de Cuernavaca, perto de Temixco, que nos  receberam e então pegamos o carro e fizemos uma viagem familiar desde Austin, na ida em comboio com amigos mexicanos e na volta em família! Foi uma linda experiência para todos em muitos e muitos sentidos. Mexicanos e brasileiros têm muita afinidade. Nessa mesma época, mais ou menos um mês depois, as parteiras Naolí Vinaver Lopez, Cristina Galante e Araceli Gil organizaram uma linda Conferência Internacional na cidade de Oaxtepec onde estiveram pessoas do mundo inteiro entre elas muitos brasileiros e brasileiras. Entre essas pessoas estavam Jan Tritten e Eneyda Spradlin-Ramos, respectivamente a dona e fundadora da Midwifery Today e sua braço direito, que passaram pela casa de Angelina antes da Conferência. Assim pude conhecê-las. Isso foi há 10 anos atrás!

Uma das minhas propostas pessoais, um dos objetivos para esse ano sabático é de usar esse tempo que ganhei de presente para ir a Conferências, formações para a minha formação continuada e aperfeiçoamento profissional e fazer mais contatos. São coisas que não consigo ou tenho mais dificuldade de fazer quando estou em Brasília me dedicando de corpo e alma a atender mulheres e suas famílias em pré-natais, partos e visitas pós-parto. Muitas vezes tenho dificuldades de sair 30 min. da cidade para ir a uma cachoeira onde não tem sinal para celular! Viagens nacionais e internacionais, férias e afins têm sempre que ser muito bem planejadas com meses de antecedência pois não costumo pegar partos para essas épocas e tenho sempre que ter uma cobertura eficiênte de uma colega de confiança quando preciso por forças maiores ou inesperadas me ausentar!

A Conferência nacional da Midwifery Today esse ano foi em Eugene Oregon, a “casa” da revista, onde elas voltam há cada dois ou 3 anos. Pensei que seria uma boa oportunidade para finalmente poder ir a uma dessas Conferências. Ir a esses eventos é sempre dispendioso! Entrei em contato com a querida Eneyda lhe perguntando se teriam a possibilidade de um desconto na Conferência em troca de algum tipo de trabalho para a mesma. Ela estava a caminho de Quíto no Ecuador com Jan para visitar um local para uma Conferência no ano que vem! Mas me respondeu quase que imediatamente que sim precisavam de tradutoras/interpretes para traduzir ninguém menos que Angelina Martines Miranda e também o médico equatoriano Diego Alarcón!  Com ajuda das milhas aéreas então lá fui eu reencontrar Angelina: 10 anos depois!

Foi muito emocionante! Eneyda me recebeu em Portland e em sua casa na cidade de Vancouver no Estado vizinho de Washington para o pernoite e no dia seguinte seguimos de carro para Eugene. Eu apenas estive no Estado de Oregon uma outra vez. Foi na pequena e deliciosa cidade de Ashland para fazer uma formação do método Calm Birth com Bruce Newman em 2008. Na volta passei algumas horas no Centro de Portland pois tinha muito tempo de espera entre um vôo e outro. Oregon nos Estados Unidos é conhecido como um Estado progressista. Costumo brincar que é o Estado com a maior concentração de estúdios de yoga, restaurantes vegetarianos e pessoas com a mente aberta por metro quadrado! Gostei de Oregon em 2008! Gostei de voltar por lá em 2015! A certificação ou licenciamento das parteiras no Estado de Oregon, pra vocês terem uma ideia no nível dessa abertura de espírito, é voluntária!

Logo na chegada em Eugene pude ter a honra de participar de uma reunião discutindo o futuro e os projetos do Global Midwifery Council. Foi muito interessante e entre as maravilhosas convidadas para essa reunião estava Hermine Hayes-Klein diretora da ONG Human Rights in Childbirth que mora em Portland. E no dia seguinte emoção total: reencontro com Angelina pra quem eu e minha colega interprete Emelyn fizemos a tradução do workshop de Pré-Conferência de dia inteiro sobre práticas tradicionais mexicanas! Tive direito á arrepio e frio na espinha de emoção em um lindo abraço! E também ganhei de presente no final do workshop: receber como modelo um fechamento (cerramiento) com o rebozo que eu incorporei na minha prática como parteira mas que nunca recebo! Só emoção!

Eneyda, Jan e sua irmã no dia de reuniões e preparações
Eneyda, Jan e sua irmã no dia de reuniões e preparações

Só me dei conta o quanto eu precisava de um dos temas que estava sendo tratado na Conferência, Amor e Medo no parto (o título da Conferência foi “Parir com Amor Muda o Mundo”), na tarde do primeiro dia oficial da Conferência depois de dois dias de Pré-Conferência! Eu estava traduzindo para Diego Alarcón em uma mesa redonda que ele dividia com Sister Morning Star (parteira da Nação Nativa Norte-Americana Cherokee) e Eneyda sobre Medo no parto vs Amor no parto. Sister falava, eu traduzia ao pé do ouvido para Diego. Ela nos contou que quando recebe um bebê lhe dá uma Benção tradicional Cherokee levando-o á luz do sol ou da lua dependendo de quando tenha nascido: “Que você possa saber por que você veio á essa vida”.  Ao final de sua linda apresentação ela pediu que nós, que a ouvíamos, encontrássemos um parceiro e que lhe disséssemos a Benção Cherokee. E Diego foi além, me perguntou baixinho: e vc sabe porque você veio a essa vida? E eu pega de surpresa respondi: acredito que uma das razões é ser parteira! E repliquei: e você, sabe? E ele respondeu: “certa vez uma mulher brasileira me disse que eu vim á essa vida para combinar o saber cientifico com o saber tradicional”! Mas além disso os dois falaram e me lembraram de algo muito importante que ressoou em mim junto com a certeza de estar nessa vida para partejar.

Canção Cherokee por Sister Morning Star

Enquanto seres humanos temos um centro básico onde reside o medo. E esse sentimento foi selecionado por milhões e milhões de anos como algo de funcional para os seres vivos. O instinto de lutar ou fugir frente a um predador é acionado pelo medo e o estresse que iniciam uma cascata hormonal que nos permite mecanismos biológicos de defesa e sobrevivência. As catecolaminas são os hormônios do estresse e do medo. O medo é então um instinto básico de sobrevivência e por tanto útil! No extremo oposto temos o centro básico onde reside o amor. E o amor e o medo estão em lados diametralmente opostos do espectro de vivências humanas. Inclusive nos processos hormonais que eles desencadeiam. O amor e suas diversas expressões concretas e abstratas fazem com que secretemos o hormônio ocitocina, popularmente chamado de O hormônio do amor. E é precisamente esse hormônio, a ociotcina, que faz contrair nossos úteros (e os pênis também!) no orgasmo e no parto! Ou seja para secretar ocitocina e não catecolaminas a mulher em trabalho de parto precisa de: amor e cuidado. Isso é o ABC do parto natural, Michel Odent (que também estava na Conferência da MT do alto dos seus 85 anos!) nos ensina isso há décadas!!!

Pois é,  na teoria é sempre mais fácil, mais bonito, mais simples! Na prática, na vida, na vivência, na experiência, somos humanos, seres infinitamente complexos, e, como dizia Sister, muitas vezes, a maioria delas, o núcleo básico do medo vence, e eu adiciono: mesmo tendo estudado e acreditando em Leboyer et Michel Odent! Somos por vezes limitados. É uma realidade humana que temos que aceitar! Todos envolvidos com parto e nascimento, profissionais e usuários, independente do modelo de assistência que sigam (citando a querida Robbie Davis Floyd também presente na Conferência: tecnocrático, holístico, humanista, pós-moderno) ou acreditem vão se deparar em algum momento com o medo. Faz parte da experiência de ser Humano, de estar vivo. E o trabalho não é erradicar o medo mas, como eu já disse em um post anterior, não deixar que ele nos paralise. Conviver com ele  da maneira mais positiva possível para que possamos viver nosso pleno potencial individual e coletivamente. Ou seja: precisamos conectar com o amor. O amor na vida, na experiência, na prática. Pra mim essa é a definição de coragem, que em português e algumas outras línguas vem da palavra latina “cor”: coração.

O medo nos faz estudar, preparar-nos, agir e vislumbrar distintos ângulos trazendo um grande peso. Partindo do amor, podemos fazer exatamente as mesmas ações de uma maneira bem mais leve! A diferença é o espaço que habitamos que moverá em seguida nossas intenções. E esse espaço é sempre, é claro, em parte definido por nossas experiências e história pessoal. Daí a importância de almejarmos sempre um caminho de auto conhecimento e desenvolvimento pessoal. Conferências como as da Midwifery Today buscam nos levar para esse espaço interno, esse centro básico do amor. E como precisamos, meus amigos, banhar nesse espaço! Desejo que vocês,  eu, nós, possamos banhar nesse espaço, conectando-nos com nosso centro básico do amor, hoje, agora e sempre. Para que assim possamos,  como deseja a Benção Cherokee, então encontrar nossa missão nessa vida, não esquece-la e lutar por ela apesar das dificuldades e do medo! Deixo-os com um dos meus textos cristãos preferidos, A Carta de Paulo aos Coríntios:

1 Coríntios 13
1 ¶ Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine.
2 E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria.
3 E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.
4 ¶ O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece.
5 Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal;
6 Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade;
7 Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
8 ¶ O amor nunca falha; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá;
9 Porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos;
10 Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado.
11 Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino.
12 Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido.
13 Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor.

No dia seguinte, quando todos se foram, uma última mensagem deixada no saguão do Hotel!
No dia seguinte, quando todos se foram, uma última mensagem deixada no saguão do Hotel!